Risco de base: por que o hedge não garante exatamente o preço físico?

Ivan Formigoni
Farmnews

Você sabe o que é o risco de base e como e porque ele pode afetar sua estratégia de proteção de preço?

O risco de base é a possibilidade de o preço físico de uma commodity em uma determinada localidade variar de forma diferente do preço do contrato futuro utilizado no hedge.

A base corresponde à diferença entre o preço físico local e a cotação futura de referência. Quando essa diferença se altera entre o início da proteção e o momento da compra ou venda, o resultado final pode ficar acima ou abaixo do esperado.

O hedge é uma ferramenta importante para reduzir o risco de preço, mas não significa que o produtor receberá exatamente o valor indicado pelo contrato futuro.

Isso acontece porque a proteção é feita em uma referência de mercado, enquanto a venda ocorre no mercado físico, em uma determinada região e sob condições específicas de oferta, demanda, qualidade, frete e prazo de pagamento.

A diferença entre esses dois mercados é chamada de base, ou basis

Base = preço físico local – preço futuro de referência

Pois é, entender o risco de base é fundamental para avaliar corretamente o resultado de uma operação de proteção no milho, na soja ou no boi gordo.

Como o risco de base aparece?

Imagine um produtor que deseja proteger a venda de sua produção. Nesse caso, considerando um produto fictício qualquer, apenas para enriquecer o exemplo, com números

No início da operação:

  • preço futuro: R$100,00;
  • preço físico local: R$95,00;
  • base: R$5,00 abaixo do futuro.

Nesse caso, o produtor pode estimar que, se o contrato futuro estiver em R$90,00 no momento da venda, o preço físico deverá ficar próximo de R$85,00, caso a base permaneça estável.

Mas isso não acontece sempre.

Na data da comercialização:

  • preço futuro: R$90,00;
  • preço físico local: R$82,00;
  • base: R$8,00 abaixo do futuro.

O produtor ganhou com a posição vendida no mercado futuro, já que o contrato recuou R$10,00. No entanto, o preço físico caiu R$13,00. A diferença adicional veio justamente do enfraquecimento da base.

Em outras palavras, o hedge reduziu o impacto da queda do mercado, mas não eliminou o risco regional. Esse é o risco de base

A base pode se fortalecer ou enfraquecer

A base se fortalece quando o preço físico sobe em relação ao futuro ou recua menos que ele.

Já a base se enfraquece quando o preço físico cai em relação ao futuro ou sobe menos que a referência da bolsa.

Vale destacar que esse movimento pode ocorrer por diferentes motivos:

  • excesso ou falta de oferta em determinada região;
  • avanço da colheita;
  • demanda das indústrias;
  • exportações;
  • variação do câmbio;
  • prêmios de exportação;
  • disponibilidade de frete;
  • capacidade de armazenagem;
  • qualidade do produto;
  • necessidade de compra dos agentes.

O comportamento da base, portanto, não é igual em todas as regiões. Uma praça pode apresentar oferta abundante e base fraca, enquanto outra, com maior demanda ou menor disponibilidade, pode ter uma base mais firme.

O risco de base no milho, na soja e no boi gordo

O conceito é o mesmo para diferentes commodities. O que muda são os fatores que influenciam o preço físico em cada mercado.

No milho, a base pode reagir de forma importante ao avanço da colheita, ao custo do frete, à demanda das fábricas de ração e das usinas de etanol.

Na soja, o comportamento do preço físico depende, entre outros fatores, da cotação internacional, do câmbio, dos prêmios de exportação, da demanda das tradings e da logística até os portos.

No boi gordo, a diferença entre a referência futura e o preço negociado na praça pode variar conforme a oferta de animais, a escala dos frigoríficos, a qualidade, o padrão dos lotes e as condições comerciais.

Isso mostra que acompanhar somente a cotação futura pode levar a uma interpretação incompleta do mercado.

O hedge pode funcionar mesmo com diferença no preço final

É importante separar duas situações.

A primeira é o risco de preço, relacionado à oscilação da referência futura. A segunda é o risco de base, associado à diferença entre o mercado físico e o futuro.

O hedge atua principalmente sobre o risco de preço. Ele não elimina completamente:

  • risco regional;
  • risco de frete;
  • risco de qualidade;
  • risco de prazo;
  • risco de prêmio;
  • risco de liquidez;
  • diferença entre a commodity física e o contrato negociado.

Por isso, uma operação pode ser tecnicamente bem executada e ainda assim resultar em um preço final diferente do inicialmente esperado.

Isso não significa necessariamente que o hedge falhou. Significa que a variação da base também influenciou o resultado.

Por que a base muda?

A base pode mudar quando o mercado físico passa a responder a fatores que não afetam o contrato futuro na mesma intensidade.

Excesso de oferta

Durante a colheita, a entrada concentrada de produto pode pressionar os preços locais, especialmente quando a armazenagem é limitada ou os compradores já estão abastecidos.

Demanda regional

Uma indústria, trading, usina ou frigorífico com necessidade imediata de compra pode pagar mais pelo produto físico, fortalecendo a base em determinada região.

Frete e logística

O aumento do frete reduz o valor líquido recebido pelo produtor e pode ampliar o desconto do mercado físico em relação à referência futura.

Exportações e prêmios

Na soja e no milho, alterações na demanda externa e nos prêmios de exportação podem modificar o preço físico brasileiro, mesmo quando a cotação internacional permanece relativamente estável.

Oferta pecuária

No boi gordo, mudanças na disponibilidade de animais e na escala dos frigoríficos podem fazer o preço físico se movimentar de forma diferente do contrato futuro.

A venda escalonada pode ser especialmente importante quando existe incerteza sobre o calendário de colheita, a demanda ou o comportamento regional dos preços.

Conclusão

O risco de base explica por que o resultado de um hedge pode ser diferente do preço inicialmente estimado.

O produtor pode proteger a queda do contrato futuro, mas continuar exposto à variação do preço físico de sua região.

Milho, soja e boi gordo possuem características diferentes, mas o princípio é o mesmo. A bolsa oferece uma referência importante para a gestão de risco, mas não substitui a análise do mercado físico.

Vale destacar: o objetivo do hedge não é garantir que o produtor venda exatamente no maior preço do mercado. O objetivo é reduzir a incerteza e proteger a margem diante de movimentos adversos.

Por isso, antes de realizar uma operação, é importante perguntar:

  • Qual é a base atual?
  • Como ela se comporta historicamente?
  • O contrato futuro acompanha bem o mercado físico da região?
  • Existe risco de a base se enfraquecer?
  • O preço protegido continua cobrindo o custo e a margem desejada?

Pois é, acompanhar apenas o preço futuro pode transmitir uma falsa sensação de proteção. O resultado econômico depende também da diferença entre a bolsa e o mercado físico.

E mudando de assunto, você sabe dizer por que o mercado futuro do boi gordo gera muito interesse, mas na prática ainda é pouco utilizado pelo produtor?

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Zootecnista, fundador do Farmnews e interessado em fornecer informações úteis aos nossos leitores!