A crise bancária no Paraguai reforça a necessidade de avaliar não apenas as oportunidades econômicas do país, mas os riscos associados à estrutura financeira.
A crise bancária no Paraguai pode ter consequências proporcionalmente maiores para o sistema financeiro do país do que o caso Banco Master representou para o Brasil.
Embora o banco Ueno, no Paraguai, seja cerca de quatro vezes menor em ativos, sua participação no sistema bancário local é aproximadamente 16 vezes maior.
Em 3 de novembro de 2026, o Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou o procedimento de resolução do Ueno Bank, instituição que concentrava aproximadamente 9,1% dos depósitos do país e informava possuir 2,9 milhões de clientes, em uma população de cerca de 6,1 milhões de habitantes.
A comparação com o Banco Master ganhou espaço no debate público brasileiro, mas os dois episódios apresentam diferenças importantes, especialmente em relação à dimensão econômica, à exposição do sistema financeiro e às investigações sobre possíveis irregularidades.
Crise bancária no Paraguai: o que aconteceu no banco Ueno?
O Banco Central do Paraguai decidiu, por unanimidade, iniciar o procedimento de resolução do Ueno Bank em 2 de novembro.
A decisão foi divulgada na madrugada do dia seguinte, após a identificação de problemas relevantes na situação financeira da instituição.
Segundo o BCP, o índice de solvência do banco ficou abaixo de 50% do mínimo exigido pela regulamentação, após ajustes nas demonstrações financeiras. A autoridade monetária também apontou deterioração da liquidez.
Com a decisão, o aplicativo, os cartões e as agências do banco deixaram de operar. As contas dos clientes não serão reativadas, e os depositantes passarão a receber os valores cobertos pelo Fondo de Garantía de Depósitos (FGD).
A garantia cobre até 75 salários mínimos por depositante e por instituição, equivalente a aproximadamente US$38,6 mil.
O Senado paraguaio aprovou uma alteração legislativa para permitir a antecipação de até 40 salários mínimos em até 24 horas. A votação na Câmara dos Deputados ainda não era conhecida no fechamento desta análise.
A crise também teve desdobramentos políticos e judiciais. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, renunciou após o presidente Santiago Peña pedir publicamente sua saída. A Fiscalía determinou a detenção de oito diretores do banco, em investigação por supostos crimes de lesão de confiança, entre outros.
O principal acionista e cofundador do Ueno, Miguel Vázquez, também se entregou à polícia. As ordens de detenção, contudo, não representam condenação, e os envolvidos têm direito à presunção de inocência.
Ueno Bank é menor que o Banco Master, mas tem maior peso no sistema financeiro
A comparação entre as duas instituições mostra por que o tamanho absoluto de um banco não é suficiente para dimensionar os riscos de uma crise financeira.
Em março de 2025, o Banco Master possuía R$ 86,8 bilhões em ativos. Já o Ueno Bank registrava US$3,75 bilhões em ativos em março de 2026, equivalentes a aproximadamente R$ 20 bilhões, considerando o câmbio de R$5,35 por dólar.
Portanto, em valores absolutos, o Banco Master era aproximadamente quatro vezes maior.
Entretanto, quando a comparação considera a participação de cada instituição no sistema financeiro de seu país, o resultado é bastante diferente.
O Banco Master representava aproximadamente 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro. No Paraguai, o Ueno concentrava cerca de 9,1% dos depósitos bancários.
Isso significa que a participação relativa do Ueno no sistema financeiro paraguaio era aproximadamente 16 vezes maior que a participação do Master no sistema brasileiro.
O alcance sobre a população também chama a atenção.
O Ueno informava possuir 2,9 milhões de clientes em junho de 2026, número equivalente a quase metade da população paraguaia. No Brasil, aproximadamente 1,6 milhão de pessoas compraram CDBs do Banco Master, menos de 1,0% da população brasileira.
É importante observar que clientes bancários e investidores em CDBs representam categorias diferentes, mas os números ajudam a dimensionar o alcance de cada instituição em seu respectivo mercado.
Previdência pública: exposição de aproximadamente R 1,9 bilhão nos dois casos
Outro ponto importante na comparação entre as crises envolve a exposição de recursos de instituições previdenciárias.
No Brasil, 19 regimes próprios de previdência de estados e municípios aplicaram aproximadamente R$1,87 bilhão em letras financeiras do Banco Master, títulos que não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
No Paraguai, o Instituto de Previsión Social (IPS), principal instituição previdenciária do país, mantinha aproximadamente US$355 milhões no Ueno Bank, valor equivalente a cerca de R$1,9 bilhão.
Embora os valores sejam próximos, a dimensão institucional é diferente.
No Brasil, os recursos estão distribuídos entre 19 regimes próprios de previdência, que atendem aproximadamente 633 mil segurados. No Paraguai, a exposição envolve o principal instituto previdenciário do país.
Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia, o IPS terá prioridade na recuperação de recursos após o pagamento das garantias do FGD, à frente dos grandes depositantes.
A exposição do setor público paraguaio não se limita ao IPS. A empresa estatal de energia ANDE também possuía aproximadamente US$46 milhões no Ueno, incluindo recursos de empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e de Taiwan.
Além disso, o próprio banco havia informado à Reuters que administrava entre US$800 milhões e US$850 milhões em fundos públicos.
Investigação do Ueno Bank e Banco Master apresenta diferenças importantes
Apesar das comparações, as investigações sobre os dois bancos apresentam estágios e características diferentes.
No Brasil, o caso Banco Master envolve uma investigação mais avançada. A Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro por suspeitas de gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro, entre outros crimes.
A investigação aponta possíveis irregularidades envolvendo pelo menos R$12 bilhões em ativos e a venda de carteiras de crédito ao BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal.
Entre julho de 2024 e outubro de 2025, essas operações somaram R$17,5 bilhões. A Polícia Federal estima um prejuízo mínimo de R$2,7 bilhões ao BRB.
No Paraguai, a investigação sobre o Ueno ainda estava em estágio inicial no fechamento desta análise.
A denúncia apresentada pelo Banco Central envolve aproximadamente 2 mil páginas e aponta problemas relacionados a créditos concedidos a empresas vinculadas ao grupo controlador, fragilidades nas carteiras de crédito e contratação de serviços de informática sem justificativa plenamente respaldada.
Até o momento, não havia valor oficial atribuído às possíveis fraudes investigadas no Paraguai.
Outro aspecto importante envolve a proximidade entre o banco e o ambiente político.
O presidente Santiago Peña foi acionista da Ueno Holding, antiga Credi Centro, e afirma ter recebido pelos papéis em março de 2025. O banco, por sua vez, declarou que Peña nunca foi acionista ou investidor diretamente na instituição financeira.
Carlos Carvallo também presidiu o Ueno até agosto de 2023, antes de assumir o comando do Banco Central. Segundo a Reuters, ele declarou impedimento para participar das decisões relacionadas à instituição.
Até o fechamento desta análise, não havia imputação localizada contra Peña ou Carvallo.
Crise bancária no Paraguai pode afetar a bancarização e a confiança no sistema financeiro.
O impacto do caso também precisa ser avaliado considerando o processo recente de ampliação do acesso aos serviços financeiros no Paraguai.
Segundo dados do Banco Mundial, em 2021 aproximadamente 54% dos adultos paraguaios possuíam conta em banco, instituição financeira ou carteira eletrônica. Uma década antes, esse percentual era inferior a 30%.
O Ueno cresceu justamente nesse ambiente, com uma proposta de abertura digital e simplificada de contas, alcançando milhões de clientes.
A interrupção das operações de uma instituição com essa abrangência pode afetar a confiança da população nos serviços bancários digitais e estimular uma preferência maior pelo dinheiro em espécie.
O impacto potencial também alcança o comércio. A entidade comercial Asimcopar alertou para uma possível semiparalisação das atividades, afirmando que duas de cada três operações eletrônicas do setor passariam por contas do Ueno. Esse número, entretanto, não havia sido confirmado pelo Banco Central.
Apesar da dimensão do problema, o BCP afirmou que aproximadamente 97% a 98% dos clientes terão seus saldos integralmente cobertos pelo fundo de garantia, conforme estimativas divulgadas por diferentes veículos de imprensa.
A Associação de Bancos do Paraguai também afirmou que o sistema financeiro continuava operando normalmente e descartou o risco de contágio.
O que a crise do Ueno significa para empresas e investidores no Paraguai?
Para empresas brasileiras com operações no Paraguai, a crise reforça a importância de avaliar a exposição bancária e a disponibilidade de recursos financeiros.
O limite de garantia do FGD é de G. 228,3 milhões por depositante e por instituição. Valores acima desse teto ficam sujeitos à recuperação dos ativos do banco e às regras de liquidação.
Nesse contexto, algumas questões merecem atenção:
- Empresas com caixa no Paraguai: qual parcela dos recursos financeiros está acima do limite de garantia por instituição?
- Empresas dependentes de pagamentos eletrônicos: existe concentração dos recebimentos e pagamentos em um único banco?
- Investidores em títulos paraguaios: o risco do emissor está sendo avaliado separadamente do risco soberano do país?
- Empresas que planejam investir no Paraguai: existe uma estratégia para manter a operação financeira caso uma instituição bancária interrompa suas atividades?
A crise também demonstra que o risco de uma instituição financeira não pode ser avaliado apenas pelo seu tamanho ou pela classificação de risco do país onde opera.
A crise do Ueno Bank é maior que a do Banco Master?
A comparação entre o Ueno e o Banco Master depende da dimensão considerada.
Em valores absolutos, o Banco Master era maior e sua investigação apresenta um estágio mais avançado, com estimativas de possíveis fraudes e prejuízos já divulgadas pelas autoridades brasileiras.
No entanto, em relação ao peso no sistema financeiro nacional, o Ueno representa uma exposição proporcionalmente muito maior para o Paraguai.
Enquanto o Master correspondia a aproximadamente 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro, o Ueno concentrava 9,1% dos depósitos paraguaios.
A diferença também aparece no alcance social, na exposição de recursos públicos e na importância da instituição para o processo de bancarização da população.
O episódio mostra que o impacto de uma crise bancária não depende apenas do tamanho da instituição, mas também de sua participação no sistema financeiro, da concentração dos depósitos e da dependência da economia em relação aos seus serviços.
Para empresas brasileiras que operam ou pretendem investir no Paraguai, a crise do Ueno reforça a necessidade de avaliar não apenas as oportunidades econômicas do país, mas também os riscos associados à estrutura financeira e bancária.
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