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Por que a IA global passa cada vez mais pelo rio Paraná?

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A principal restrição ao crescimento das big techs não é capital nem talento: é eletricidade confiável, limpa e de custo previsível a longo prazo.

Em maio de 2026, o presidente Santiago Peña chegou a Taipei com uma delegação de mais de 40 líderes empresariais e voltou com um acordo que ninguém esperava: uma joint venture 50/50 com Taiwan para construir um dos maiores centros de IA do mundo — no meio da América do Sul.

Antes disso, em San Francisco, Peña já havia se sentado com executivos do Google e da NVIDIA para apresentar um argumento simples e devastador: o Paraguai tem o que o planeta mais precisa neste momento — energia limpa, barata e em excesso.

A aproximação não começou em sala de reunião — começou com uma equação energética.

O Paraguai detém a cogeração da maior hidrelétrica do mundo em geração anual, Itaipu, e não consome nem metade da cota que lhe cabe pelo tratado bilateral.

Essa energia fica parada ou é revendida ao Brasil a preços negociados enquanto, do outro lado do planeta, as grandes empresas de tecnologia pagam fortunas por quilowatt-hora de energia limpa para alimentar seus data centers.

Peña enxergou a arbitragem antes que qualquer analista de mercado formulasse a tese em relatório: Taiwan produz 90% dos semicondutores do mundo e precisa de energia para processá-los. O Paraguai tem energia limpa e renovável sobrando. O acordo era inevitável — faltava quem tivesse a audácia de propô-lo.

A escala que transforma um país em infraestrutura global.

O projeto com Taiwan não é um memorando de intenções. É uma arquitetura em três fases com capital comprometido e cronograma real:

Para contextualizar: Itaipu, a maior obra de engenharia do século XX na América Latina, custou aproximadamente US$ 30 bilhões. O projeto de IA paraguaio-taiwanês tem o potencial de atingir exatamente esse patamar — e de criar um ativo de geração de renda contínua, ao contrário de uma hidroelétrica, que depende de negociações tarifárias a cada ciclo.

Por que a IA global passa cada vez mais pelo rio Paraná?

Dados centers são, em essência, máquinas que consomem energia. Um único hyperscale data center pode consumir mais de 100 MW continuamente — o que equivale ao consumo de uma cidade de porte médio.

A principal restrição ao crescimento das big techs não é capital nem talento: é eletricidade confiável, limpa e de custo previsível a longo prazo.

O Paraguai acertou exatamente nesse ponto sensível ao criar, em 2026, uma política pública com tarifa elétrica especial, garantida por até 15 anos, para data centers, IA e cloud computing. Enquanto outros países disputam projetos com incentivos fiscais temporários, Assunção ofereceu algo raro: previsibilidade energética de longo prazo — o ativo mais escasso do setor.

Clientes ou parceiros? A leitura que muda tudo.

Aqui reside a nuance mais importante desta história. O Google e a NVIDIA não foram ao Paraguai. O Paraguai foi até eles — com uma proposta diferente da que o mercado imagina.

A jogada não é convencer o Google a instalar um escritório em Assunção. É convencer o Google a comprar capacidade de processamento da empresa binacional paraguaio-taiwanesa — do mesmo jeito que hoje compra energia renovável de terceiros ou aluga capacidade de outros data centers em todo o mundo. O Paraguai não quer ser sede do Google. Quer vender computação ao Google.

Esse modelo — que a La Nación paraguaia chama de ‘venda de cómputos’ — é análogo ao que os países do Golfo fizeram com o petróleo nos anos 1970: transformar um recurso natural abundante em infraestrutura exportável de alto valor agregado. A diferença é que a ‘commodity’ agora é poder de processamento de IA, e a demanda global por ela cresce mais rápido do que qualquer prognóstico.

 

Brasil no banco de trás da corrida por data centers

Enquanto o Paraguai avança com acordos concretos, o Brasil ocupa apenas a 10ª posição no mercado global de data centers, com participação de cerca de 2% — atrás do Japão e da Holanda. Aproximadamente 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior, o que gera um déficit de US$7,1 bilhões na balança de serviços de telecomunicações e de computação em 2024.

O paradoxo é completo: os consumidores brasileiros do Sul, Sudeste e Centro-Oeste já pagaram R$18 bilhões a mais pela energia de Itaipu desde 2022 — enquanto o Paraguai usa parte dessa energia para atrair data centers e criar uma indústria do século XXI. O investimento global em data centers deve superar US$ 1 trilhão em 2026. O Brasil discute medidas provisórias tributárias. O Paraguai fecha acordos em Taipé.

O que acompanharemos nos próximos 12 meses.

O movimento paraguaio é complexo e ainda está em construção. Há riscos reais — vender capacidade computacional a compradores globais quando o projeto ainda não saiu do papel exige credibilidade construída com execução, não com anúncios. Mas a direção está clara. O que observar:

  • Concretização da Fase 1: operação dos primeiros 10 MW da parceria com Taiwan em 12 a 14 meses;
  • Negociação de contratos de compra de capacidade computacional com Google, Meta ou Amazon;
  • Evolução da política tarifária de Itaipu e impacto na competitividade energética paraguaia pós-2026;
  • Movimentação de outros países da região — especialmente Brasil e Argentina — em resposta ao modelo;
  • Novos acordos com empresas de semicondutores: a NVIDIA como fornecedora de hardware para o data center;
  • Atração de novas empresas de tecnologia ao ecossistema digital paraguaio além do projeto binacional.

O fato é que o Paraguai deixou de ser visto apenas como uma economia pequena e periférica. Nas últimas décadas, passou a ocupar uma posição estratégica nas cadeias agroalimentares regionais e globais.

O resultado foi a transformação do Paraguai em uma espécie de hub produtivo regional, especialmente em cadeias produtivas como soja, carne, energia e agroindústria. Clique aqui e saiba mais!

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