Quem acompanha o mercado do boi gordo certamente já ouviu que “estamos em uma fase de alta do ciclo pecuário” ou que “o ciclo virou”. Mas, afinal, o que isso realmente significa?
O ciclo pecuário é um dos conceitos mais importantes no mercado de bovinos de corte já que explica por que o preço do boi gordo e do bezerro passa por períodos de valorização e de queda que podem durar vários anos.
O comportamento histórico do preço do bezerro (Cepea, Mato Grosso do Sul) ilustra claramente (primeira Figura) esses movimentos cíclicos de alta e baixa no longo prazo.
Veja que em 2015 o preço corrigido do bezerro alcançou a máxima naquele ciclo pecuário. Novamente, o preço da categoria de reposição alcançou a máxima no próximo ciclo pecuário em 2021. O intervalo de tempo entre os dois ciclos de alta foi de, em torno de 6 anos. No atual ciclo de alta o preço ainda não alcançou a máxima e, isso deve acontecer nos próximos anos, talvez em 2027. Vamos acompanhar.
E enquanto o ciclo pecuário alcança as máximas entre cerca de 6 a 7 anos, em média, o intervalo entre a máxima e a mínima em um ciclo acontece na metade do teeempo, ou seja, entre algo em torno de 3 a 4 anos. Mas, como veremos a seguir, esse tempo entre as máximas e mínimas não é fixo, ele varia.
A Figura ilustra a evolução mensal do preço corrigido do bezerro (Cepea, Mato Grosso do Sul), corrigido pelo IGP-M de junho de 2026, em Reais por cabeça, desde 2010.

Mas afinal, o que é o ciclo pecuário?
O ciclo pecuário é consequência do tempo necessário para transformar decisões de investimento em aumento ou redução da oferta de animais para abate.
Quando a atividade se torna mais rentável, os produtores tendem a reter matrizes para aumentar a produção de bezerros. Como esse processo leva anos, a oferta responde lentamente e o mercado alterna períodos de escassez e uma maior ofertta de animais.
É justamente essa dinâmica que explica boa parte dos movimentos de longo prazo do preço do boi gordo e do bezerro.
Por isso, acompanhar o ciclo pecuário significa olhar além da cotação diária da arroba e entender como as decisões tomadas hoje moldam o mercado dos próximos anos.
E como temos destacado no Farmnews, mesmo em um ciclo pecuário de alta, como o atual, o preço do boi gordo permanece bastante volátil e alterna movimentos de alta e baixa dentro do ano (segunda Figura).
Isso mostra que, mesmo em uma tendência de alta de longo prazo, os preços do animal pronto para o abate podem oscilar de modo significativo.
E é justamente por isso que chamamos a atenção para análise dos fundamentos do mercado, mas também a gestão de risco, seja pelos recursos oferecidos pelo mercado financeiro na B3 ou um bom planejamento de vendas.
A Figura ilustra a evolução diária do preço nomina do boi gordo (Cepea), em Reais por arroba, ao longo dos últimos anos, desde 2024.

Em resumo, o ciclo pecuário é a alternância entre períodos de maior e menor oferta de bovinos para abate.
Essa alternância ocorre porque a produção de bovinos responde lentamente às mudanças de mercado.
Por que a retenção de fêmeas faz o preço subir?
Esse é um dos pontos mais importantes do ciclo.
Quando menos vacas são abatidas, duas consequências ocorrem ao mesmo tempo.
A primeira é imediata.
Como menos fêmeas chegam aos frigoríficos, a oferta de carne bovina diminui.
A segunda consequência aparece apenas alguns anos depois.
As matrizes retidas passam a produzir mais bezerros, aumentando gradualmente o rebanho. Em outras palavras a mesma decisão reduz a oferta no presente e aumenta a produção no futuro.
É justamente essa defasagem que movimenta o ciclo pecuário.
Quando o ciclo pecuário muda de direção?
Depois de alguns anos de retenção, aqueles bezerros produzidos entram nas fases de recria e terminação.
Gradualmente, aumenta o número de animais disponíveis para abate.
Se a demanda não crescer no mesmo ritmo, a oferta passa a superar o consumo.
O resultado costuma ser pressão sobre os preços do boi gordo.
Com margens menores, muitos produtores deixam de expandir o rebanho.
Em alguns casos, voltam inclusive a aumentar o descarte de matrizes.
Esse aumento do abate de vacas amplia a produção de carne no curto prazo, mas reduz novamente a capacidade de produzir bezerros no futuro.
Assim, o mercado inicia uma nova fase do ciclo.
A Figura abaixo ilustra o ciclo pecuário

O abate de fêmeas: pode-se dizer que o indicador do ciclo pecuário mais acompanhado
O percentual de vacas e novilhas abatidas é um dos indicadores mais acompanhados pelo mercado.
Isso porque ele revela como os produtores estão reagindo às condições econômicas.
Quando o descarte de fêmeas aumenta, normalmente significa que há menor interesse em expandir o rebanho.
Quando ocorre retenção de matrizes, a expectativa costuma ser de aumento da produção de bezerros nos anos seguintes.
E aqui cabe uma pergunta importante: o ciclo pecuário é sempre igual? Não.
Embora o mecanismo seja o mesmo, a intensidade e a duração do ciclo variam ao longo do tempo.
Hoje a pecuária brasileira é muito mais tecnificada do que há vinte ou trinta anos.
A utilização de genética superior, inseminação artificial, confinamento, suplementação e manejo mais eficiente aumentou a produtividade do rebanho e reduziu parte do tempo necessário para produzir animais terminados.
Por isso, o ciclo pecuário continua existindo, mas é influenciado por um número cada vez maior de fatores.
E mudando de assunto, o mercado do boi gordo a termo é uma das ferramentas disponíveis para o pecuarista reduzir o risco de preço, mas claro, oferece vantagens e desvantagens.
Vale lembrar que, nesse assunto de proteção de preço, o Farmnews questionou os motivos pelos quais muitas vezes o produtor não utiliza os mecanismos de proteção e aqui falando exclusivamente do mercado futuro na B3.
Debatemos que além do desconhecimento, existe uma aversão ao risco que precisa ser melhor esclarecida e gerida especialmente quando envolve o ajuste diário. Talvez o ajuste diário, aliada à alta volatilidade, seja o principal limitante para muitos produtores. Clique aqui e saiba mais do assunto!
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