Tarifa de 25% dos EUA pode acelerar a migração industrial do Brasil

Gilson Milde
Farmnews

A tarifa de 25% dos EUA não é apenas um problema entre Brasília e Washington. Ela altera o valor relativo de produção em cada país.

Quando uma tarifa sobe, a primeira reação costuma vir do departamento de comércio exterior.

A segunda acontece na diretoria.

A terceira pode alterar o endereço da fábrica.

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Em 22 de julho de 2026, os Estados Unidos começaram a aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos originários do Brasil.

A medida que gerou a tarifa de 25% dos EUA resultou de uma investigação conduzida pelo USTR, no âmbito da Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

O alcance é relevante. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, a tarifa atinge cerca de 4 mil produtos e US$11 bilhões em exportações brasileiras, o que equivale a 26,2% das vendas do Brasil aos Estados Unidos, com base na pauta de 2024.

A lista final incorporou 429 novas exceções, mas manteve expostos segmentos importantes da indústria. A madeira aparece com 83,1% de suas exportações aos EUA alcançadas pela medida; minerais não metálicos, com 56,3%; químicos, com 51,8%; e alimentos, com 38,1%.

Mas a tarifa de 25% dos EUA já não contam toda a história.

Desde 24 de julho, uma segunda tarifa adicional de 12,5%, vinculada a outra investigação da Seção 301, passou a incidir sobre uma parcela relevante da pauta brasileira.

A CNI estima que 3.985 produtos, correspondentes a US$10,8 bilhões em exportações, ficaram sujeitos a uma carga adicional combinada de 37,5%. No total, 48,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estão sujeitas a algum tipo de tarifa adicional.

Esse é o ponto central: para milhares de produtos, a discussão deixou de ser sobre absorver um custo temporário. Passou a ser sobre a preservação do acesso ao mercado.

O impacto já vinha aparecendo antes da nova tarifa

A pressão sobre a indústria brasileira não começou em julho de 2026.

Em 2025, as exportações do Brasil para os Estados Unidos recuaram de US$40,4 bilhões para US$37,7 bilhões — uma queda de US$2,7 bilhões, ou 6,7%.

O Banco Central observou que a retração se intensificou nos meses de tarifas mais elevadas e ocorreu principalmente devido ao menor volume exportado. Parte das vendas foi redirecionada para outros mercados, reduzindo o impacto agregado, mas não eliminando as perdas setoriais.

No primeiro semestre de 2026, antes mesmo da nova tarifa de 25% entrar em vigor, as exportações brasileiras aos EUA já registravam uma redução de 13%, o que equivale a US$2,6 bilhões. Vinte das 27 unidades da Federação venderam menos ao mercado norte-americano.

Uma tarifa dessa dimensão produz quatro reações possíveis:

  1. reduzir margem para manter o cliente;
  2. repassar preço e correr o risco de perder mercado;
  3. redirecionar as exportações;
  4. redesenhar a cadeia produtiva.

É na quarta reação que o Paraguai entra.

A migração para o Paraguai já existia

Seria incorreto afirmar que a tarifa anunciada em julho já provocou uma onda mensurável de migração industrial. A medida entrou em vigor há poucos dias, enquanto decisões de investimento, licenciamento, implantação e qualificação de fornecedores levam meses ou anos.

O que os dados permitem afirmar é diferente: a tarifa de 25% dos EUA confere urgência a um movimento que já estava em curso.

Levantamento publicado em maio de 2026 identificou 232 empresas brasileiras operando no Paraguai sob o regime de maquila, o que representa cerca de 70% das mais de 320 empresas estrangeiras enquadradas no sistema.

A Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai relatou ter recebido de 20 a 40 executivos por mês interessados em investir no país. Entre os projetos recentes está a operação da Dass em parceria com a Texcin, com investimento anunciado de US$40 milhões e previsão de mais de 600 empregos.

Os números oficiais da maquila mostram que a plataforma industrial paraguaia ganhou escala:

  • US$717 milhões exportados no primeiro semestre de 2026, aumento de 25% sobre igual período de 2025;
  • 36.052 empregos vinculados ao regime, alta interanual de 6%;
  • 69% das exportações paraguaias de manufaturas de origem industrial vieram da maquila em 2025;
  • 92% das empresas com programas aprovados estão concentradas em Alto Paraná, Central, Assunção e Amambay;
  • 4% das exportações de maquila tiveram os Estados Unidos como destino no primeiro semestre de 2026.

Há também uma coincidência estratégica entre os setores brasileiros sob pressão e as capacidades já instaladas no Paraguai. Alimentos e bebidas representam 17% das exportações da maquila; confecções e têxteis, 16%; alumínio, eletrônicos e plásticos, 6% cada; e químicos e farmacêuticos, 4%.

Isso não prova uma transferência causada pela tarifa. Mostra que o Paraguai já possui uma base industrial capaz de receber projetos em segmentos que agora precisam revisar sua localização produtiva.

O Paraguai ganhou vantagem relativa

O Paraguai não foi alvo da medida específica aplicada ao Brasil. Isso cria uma diferença potencial de custo para produtos que possam ser efetivamente fabricados no país.

Além da diferença tarifária, o investidor encontra o regime de maquila, com tributação de 1% sobre o valor agregado no Paraguai, energia competitiva, menor complexidade tributária e proximidade com fornecedores e com unidades brasileiras.

Mas é importante não transformar essa oportunidade em uma promessa automática.

O Paraguai não possui tarifa zero geral para entrar nos Estados Unidos. Produtos paraguaios continuam sujeitos à tarifa normal norte-americana, a quotas e a medidas específicas por setor. Em alguns casos, como o de carne bovina fora da quota, a carga pode permanecer elevada. A vantagem precisa ser calculada produto a produto, código a código e rota a rota.

O ministro da Indústria e Comércio do Paraguai, Marco Riquelme, afirmou que a diferença tarifária abre uma oportunidade para atrair investimentos. A declaração é coerente com a lógica econômica, mas oportunidade institucional ainda não significa viabilidade empresarial.

Mudar a rota não muda a origem

Este é o ponto que separa uma estratégia industrial de uma triangulação arriscada.

Enviar um produto brasileiro ao Paraguai, trocar a embalagem e reexportá-lo não o torna automaticamente um produto paraguaio.

Para aplicar medidas da Seção 301, a alfândega norte-americana utiliza a análise de “transformação substancial”. Em termos práticos, o processo realizado em outro país precisa gerar um artigo com um novo nome, caráter ou uso. Operações simples, acabamento superficial, embalagem ou montagem limitada podem ser insuficientes.

O próprio processo paraguaio de certificação de origem exige declaração juramentada, descrição do processo produtivo, documentação dos insumos e verificação dos requisitos aplicáveis.

Ainda assim, possuir uma empresa no Paraguai, operar sob maquila ou obter um certificado local não substitui a análise de origem exigida pelo país importador.

Para que a estratégia seja defensável, o Paraguai precisa receber produção real:

  • máquinas e capacidade instalada;
  • pessoas e conhecimento técnico;
  • transformação industrial relevante;
  • controle de qualidade e rastreabilidade;
  • fornecedores e contratos compatíveis;
  • documentação de custos e conteúdo produtivo;
  • governança e substância econômica.
  • Não se trata de alterar a nota fiscal. Trata-se de alterar a arquitetura de produção.

Quais empresas deveriam estudar o Paraguai agora?

Não são todas.

A análise faz mais sentido para empresas que reúnam quatro condições:

  • possuem exposição relevante ao mercado norte-americano;
  • vendem produtos atingidos pelas tarifas de 25% ou 37,5%;
  • conseguem transferir uma etapa industrial com transformação substancial;
  • preservam competitividade mesmo se a tarifa for reduzida no futuro.

Madeira processada, alimentos, químicos, farmacêuticos, plásticos, confecções, componentes elétricos e alguns produtos de minerais não metálicos merecem atenção imediata. Porém, cada caso depende da classificação HTS, das exceções aplicáveis, das tarifas setoriais, da regra de origem e da disponibilidade de insumos no Paraguai.

Antes do investimento, seis respostas

Uma empresa brasileira deveria avançar apenas depois de responder:

Qual é a tarifa efetiva do produto?
O código HTS está sujeito a 25%, 37,5%, Seção 232, quota ou exceção?

Qual processo precisa ocorrer no Paraguai?
A operação prevista configura uma transformação substancial para a alfândega norte-americana?

Quanto da vantagem permanece depois da logística?
É preciso incluir CAPEX, frete, lead time, estoque, capital de giro, seguros, certificações e custo financeiro.

A cadeia de fornecedores acompanha a fábrica?
Transferir a etapa final, sem insumos, manutenção, embalagem, laboratório e qualidade, pode apenas deslocar o gargalo.

A operação terá substância econômica?
Pessoas, decisões, contratos, riscos e controles precisam existir no Paraguai.

O projeto continua de pé sem a tarifa?
Se a conta depende exclusivamente dos 25%, a empresa não tem uma estratégia industrial. Tem uma aposta regulatória.

A fronteira passou a fazer parte da política comercial

Os 25% dos EUA não é apenas um problema entre Brasília e Washington.

Ela altera o valor relativo de produção em cada país.

O Paraguai já vinha atraindo empresas brasileiras por conta de impostos, energia, custos e previsibilidade. Agora pode ganhar uma quinta vantagem: uma origem produtiva potencialmente menos exposta à medida específica contra o Brasil.

Mas a oportunidade não está em usar o Paraguai como endereço de exportação.

Está em construção no Paraguai uma operação que faça sentido tributário, produtivo, logístico, cambial e aduaneiro — e que continue competitiva quando o cenário político mudar.

A tarifa de 25% dos EUA pode acelerar a decisão.

Não deve substituir o diagnóstico.

Antes de transferir uma linha, abrir uma empresa ou aprovar um investimento, a Agrarias Solutions analisa a classificação do produto, as regras de origem, a arquitetura tributária, os custos, a logística, os riscos cambiais, a substância econômica e os cenários de permanência ou de retirada das tarifas.

O objetivo não é confirmar que o Paraguai é a melhor escolha.

É descobrir, com dados, se ele realmente é.

Você sabia também que os economistas já têm um apelido para o Paraguai: “Tigre Guarani” — uma referência direta aos tigres asiáticos que surpreenderam o mundo nos anos 1990. Clique aqui e saiba mais do assunto!

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