Quais os riscos que podem impactar os diferentes elos do sistema agroindustrial?

Nadia Alcantara
Farmnews

Quando falamos de risco no agronegócio, precisamos olhar para o sistema agroindustrial como um todo.

No artigo anterior, eu comentei que gestão de riscos é um processo contínuo de identificação, análise, decisão de tratamento e monitoramento dos riscos que podem afetar uma empresa. Também falei que, no agro, existe uma tendência de reduzir esse debate a preço e hedge, quando na verdade a realidade é muito mais ampla.

E é justamente sobre isso que quero falar neste artigo.

Quando pensamos em agronegócio, é comum imaginar primeiro o que acontece “dentro da porteira”. Mas o agro é muito maior do que isso. Ele envolve os fornecedores de insumos, o produtor, as cooperativas, a indústria, a logística, o sistema financeiro, o mercado comprador, os exportadores e vários outros agentes. É uma cadeia. E, como toda cadeia, os impactos não ficam parados em um único elo.

Um problema no campo pode virar inadimplência mais à frente. Uma falha logística pode gerar perda operacional. Uma mudança regulatória pode afetar custo, acesso a mercado ou viabilidade do negócio. Um evento climático pode se transformar em problema financeiro, contratual e reputacional ao mesmo tempo.

Por isso, quando falamos de risco no agronegócio, precisamos olhar para o sistema agroindustrial como um todo.

A partir da literatura e também da prática do setor, é possível organizar esses riscos em grandes dimensões. Essa divisão ajuda porque dá mais clareza ao produtor e aos gestores do agro, e evita aquela sensação de que risco é uma coisa genérica, abstrata, difícil de mapear.

A primeira dimensão é o risco de mercado. Esse é muito visível nas cadeias ligadas a commodities, como grãos, açúcar, proteína animal e várias outras. Preços de venda oscilam. Custos de produção também. Fertilizantes, defensivos, energia, frete, mão de obra e câmbio podem mudar rapidamente.

E, em geral, a empresa individualmente tem pouca influência sobre esses movimentos. Isso significa que margem, planejamento e capacidade de pagamento ficam muito expostos.

A segunda dimensão envolve os riscos operacionais. Aqui entram falhas de processo, problemas de manutenção, acidentes, erros de execução, falhas humanas, desorganização interna, perda de qualidade, incidentes logísticos e até situações aparentemente simples, mas que podem gerar prejuízos concretos.

Uma semeadora mal regulada, um manejo inadequado, uma falha na armazenagem, um procedimento mal executado, um acidente de trabalho: tudo isso é risco operacional.

Temos também os riscos biológicos, que no agro são especialmente relevantes. Pragas, doenças, surtos sanitários, fungos, contaminações e desequilíbrios biológicos podem afetar tanto a produção vegetal quanto a animal. Em algumas cadeias, esse tipo de risco tem impacto imediato sobre produtividade, custo e comercialização.

Os riscos climáticos talvez sejam os mais lembrados, e com razão. Excesso de chuva, seca, granizo, geada, vendaval, incêndios, ondas de calor e outros extremos climáticos afetam diretamente a produção, a qualidade e a previsibilidade da operação. E, em um cenário de maior variabilidade climática, esse grupo de riscos ganha ainda mais relevância.

Outra frente importante é a dos riscos ambientais. Aqui entram degradação de solo, erosão, contaminação de solo e água, escassez hídrica, restrições de uso de recursos naturais e até temas ligados à regularidade ambiental da operação. Em alguns casos, esse risco tem efeito direto sobre a produção. Em outros, pode afetar financiamento, reputação e acesso a determinados mercados.

Há ainda os riscos financeiros, que envolvem acesso a crédito, custo do capital, endividamento, variação de juros, exposição cambial, pressão sobre caixa e dificuldade de honrar compromissos. Esse tipo de risco costuma crescer quando outros riscos se materializam, e é por isso que ele raramente aparece sozinho.

Os riscos tecnológicos também merecem atenção. Não adotar tecnologia no ritmo necessário, fazer investimentos inadequados, depender demais de sistemas frágeis ou operar com baixa proteção digital pode comprometer competitividade e eficiência.

Nos riscos humanos, entram temas como sucessão, conflitos familiares, doença, falecimento repentino, dificuldade de retenção de pessoas, falta de mão de obra qualificada e falhas de liderança. Em muitas empresas do agro, especialmente familiares, esse grupo de riscos é subestimado até virar um problema real.

E, por fim, temos os riscos institucionais ou regulatórios, que incluem mudanças em legislação, políticas públicas, exigências ambientais, regras de mercado, barreiras comerciais e alterações nas condições institucionais do setor.

O mais importante, no entanto, não é apenas decorar essa lista. É perceber que os riscos cercam a atividade e se conectam entre si. Eu gosto de representar esse conceito como uma “mandala” dos riscos no agronegócio, representada na Figura abaixo:

Figura: A Mandala dos riscos do agronegócio demonstra como os riscos circundam as empresas, e se conectam entre si. Elaborado pela autora.

sistema agroindustrial

No agro, quase nunca um evento gera um impacto isolado. Uma seca pode virar quebra de safra. A quebra de safra pode virar perda de receita. A perda de receita pode virar dificuldade de pagamento. A dificuldade de pagamento pode afetar fornecedores, financiadores, cooperativas e contratos. Ou seja: risco no agro tem efeito em cadeia.

É por isso que gestão de risco não pode ser tratada como um checklist. Ela precisa ser um exercício de leitura sistêmica do seu negócio.

No próximo artigo, vamos avançar nessa lógica e falar de uma ferramenta muito útil para quem quer sair do discurso genérico e começar a priorizar melhor os riscos do negócio: a matriz de risco.

Não hesite em mandar comentários, dúvidas e interagir comigo nos artigos. A ideia é gerar cada vez mais sensibilização para essa temática tão importante para sustentabilidade do setor Agro!

Até o próximo artigo!

Aviso: esse artigo reflete uma opinião pessoal; não é recomendação técnica/atuarial nem orientação de compra.

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