Dólar no agro: por que o câmbio influencia tanto o preço e o custo?

Ivan Formigoni
Farmnws

Poucos indicadores econômicos exercem tanta influência sobre o agronegócio brasileiro quanto o dólar.

A cotação da moeda americana afeta diariamente o preço da soja, do milho, do boi gordo, do café, do algodão e de praticamente todas as commodities produzidas no Brasil. Ao mesmo tempo, também influencia o custo dos fertilizantes, defensivos, máquinas, medicamentos veterinários, combustíveis e diversos outros insumos utilizados na produção.

Por isso, acompanhar o dólar não é uma tarefa exclusiva de economistas ou investidores. Para o produtor rural, entender como o câmbio afeta a rentabilidade da atividade é tão importante quanto acompanhar o clima, os custos de produção ou os preços das commodities.

O que é a taxa de câmbio?

A taxa de câmbio representa a relação de valor entre duas moedas.

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Quando o dólar está cotado a R$5,50, significa que são necessários R$5,50 para comprar um dólar.

Se a cotação sobe para R$6,00, dizemos que o real perdeu valor frente à moeda americana (desvalorização do Real).

Quando ocorre o movimento contrário e o dólar recua para R$5,00, o real ganha valor (valorização do Real).

Essa variação parece distante da realidade da fazenda, mas influencia diretamente a formação dos preços agrícolas e pecuários no Brasil.

Por que o dólar é tão importante para o agronegócio?

A resposta está na forte integração do agronegócio brasileiro com o mercado internacional.

Vale destacar que o Brasil está entre os maiores exportadores mundiais de soja, milho, carne bovina, carne de frango, café, açúcar, algodão e celulose. E, eses produtos são negociados internacionalmente em dólares.

Isso significa que, independentemente do local onde a produção será comercializada, o mercado brasileiro utiliza como referência preços internacionais convertidos para Reais.

Em outras palavras, o produtor recebe em Reais, mas grande parte do valor do seu produto é formada a partir de preços estabelecidos em dólares.

Como o dólar influencia o preço das commodities?

O impacto pode ser entendido por um exemplo simples.

Imagine que o preço internacional da soja permaneça exatamente o mesmo durante um mês.

Se nesse período o dólar subir de R$5,20 para R$5,80, o valor da soja convertido para reais aumenta, mesmo sem qualquer alteração na cotação internacional.

O mesmo ocorre com outras commodities exportadas pelo Brasil.

Naturalmente, essa relação não é perfeita.

Além do câmbio, também influenciam os preços fatores como oferta e demanda mundial, clima, estoques, custos logísticos, prêmios de exportação e expectativas do mercado.

Ainda assim, o dólar costuma ser um dos principais componentes da formação dos preços internos.

Por que até quem vende apenas no mercado interno acompanha o dólar?

Essa é uma das dúvidas mais comuns entre produtores.

Mesmo que a produção nunca seja exportada diretamente, ela concorre com produtos destinados ao mercado externo.

Se exportar se torna mais atrativo, aumenta a competição pela produção nacional.

Como consequência, os preços internos tendem a acompanhar, pelo menos parcialmente, a chamada paridade de exportação, que representa o valor que aquela commodity pode alcançar no mercado internacional, descontados os custos necessários para exportá-la.

Por isso, mudanças no câmbio acabam influenciando também negócios realizados exclusivamente dentro do Brasil.

O dólar também influencia os custos de produção

Se por um lado um dólar mais alto pode favorecer os preços das commodities, por outro ele costuma aumentar o custo de produção.

O Brasil importa uma parcela significativa dos fertilizantes utilizados na agricultura.

Diversos defensivos agrícolas também possuem matérias-primas importadas em sua composição.

Na pecuária, medicamentos veterinários, suplementos minerais, equipamentos, peças de reposição e diversos componentes da cadeia também apresentam forte dependência do mercado externo.

Além disso, máquinas agrícolas, implementos e tecnologias incorporam componentes importados ou preços referenciados internacionalmente.

Quando o dólar sobe, todos esses produtos tendem a ficar mais caros em reais.

Por isso, a valorização da moeda americana não representa apenas uma oportunidade de preços melhores para quem vende commodities.

Ela também pressiona os custos da atividade.

Dólar alto é sempre bom para o produtor?

Não.

Essa talvez seja a maior simplificação feita quando se fala sobre câmbio.

O efeito do dólar depende da relação entre receitas e custos.

Um produtor de soja, por exemplo, pode se beneficiar de preços maiores em Reais, mas também enfrentar fertilizantes mais caros.

Na pecuária, um frigorífico exportador tende a ganhar competitividade quando o dólar sobe.

Já o pecuarista pode ser beneficiado por uma demanda externa mais aquecida, mas também enfrentar aumento no custo de medicamentos, suplementos, equipamentos e até mesmo da alimentação animal, caso milho e farelo de soja acompanhem o mercado internacional.

Ou seja, não existe uma resposta única.

O impacto depende da atividade desenvolvida, do momento da comercialização e da estrutura de custos de cada propriedade.

O dólar influencia diferentes cadeias de forma distinta

Embora todas as commodities sejam afetadas pelo câmbio, a intensidade desse efeito varia.

Na soja, a influência costuma ser mais direta, já que praticamente toda a formação de preço está ligada ao mercado internacional.

No milho, além do dólar, a produção doméstica e o consumo interno possuem peso relevante.

No boi gordo, o câmbio influencia principalmente a competitividade das exportações brasileiras de carne bovina. Quando o dólar se valoriza, a carne produzida no Brasil tende a ficar ainda mais competitiva no mercado internacional.

Mas vale lembrar que a formação do preço da arroba também depende da oferta de animais, do consumo interno, do ciclo pecuário e de diversos outros fundamentos.

O câmbio influencia as decisões de comercialização

A decisão de vender uma commodity não depende apenas do preço observado naquele dia.

Ela também envolve expectativas para o câmbio.

Em muitos momentos, uma queda no preço internacional pode ser parcialmente compensada por uma alta do dólar.

Da mesma forma, uma valorização da commodity pode ser reduzida por um Real mais forte.

Por isso, produtores, cooperativas, tradings e indústrias acompanham diariamente a evolução conjunta do mercado internacional e do câmbio.

É essa combinação que determina o preço efetivamente recebido pelo produtor.

E mudando de assunto, percebemos que existe uma dúvida recorrente entre produtores rurais: a diferença entre hedge, comercialização antecipada e barter.

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Zootecnista, Fundador do Farmnews e interessado em fornecer informações úteis aos nossos leitores!