sexta-feira, fevereiro 27, 2026
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Os Encantadores de Serpentes da Tecnologia Digital e o Produtor Rural

Fora do auditório climatizado, existe a terra. E nela, existe o produtor rural — o verdadeiro sustentáculo da cadeia produtiva nacional.

Como o modelo de venda das grandes empresas pode estar sabotando a confiança do produtor rural

Há um tipo muito específico de profissional que prospera em ambientes de alta complexidade: ele domina o discurso técnico, opera siglas como se fossem poesia e apresenta gráficos que sobem sempre para a direita. Ele não vende apenas software — vende a sensação de modernidade, de pertencimento à elite tecnológica.

No agronegócio brasileiro, esse personagem ganhou palco.

Mas fora do auditório climatizado, existe a terra. E nela, existe o pequeno e médio produtor rural — o verdadeiro sustentáculo da cadeia produtiva nacional.

É sobre esse choque de realidades que precisamos falar.

1.  A Estrutura do Problema: Quando a Meta Vira o Norte

Grandes empresas de tecnologia digital operam sob uma lógica clara e legítima: crescimento contínuo, aumento de ticket médio, expansão de base instalada, previsibilidade de receita recorrente.

Essa engrenagem exige:

  • Produtos padronizados
  • Implantação escalável
  • Contratos robustos
  • Grandes estruturas de suporte

O problema surge quando esse modelo — concebido para médias e grandes corporações — é transplantado, quase sem adaptação, para pequenas e médias propriedades rurais.

Nesse momento, a meta comercial passa a ditar o ritmo da oferta.

E não a necessidade real do produtor.

2.  A Dissociação Entre Sofisticação e Aderência

O pequeno e médio produtor rural brasileiro não opera como uma empresa urbana estruturada.

Ele:

  • Acumula múltiplas funções
  • Toma decisões sob risco climático
  • Trabalha com margens comprimidas
  • Possui baixa formalização administrativa
  • Lida com dados dispersos e pouco estruturados

Ainda assim, recebe propostas de:

  • ERPs complexos
  • Plataformas integradas com dezenas de módulos
  • Soluções com inteligência artificial embarcada
  • Projetos de implantação de longo prazo

A pergunta que precisa ser feita — com honestidade intelectual — é simples: Essas soluções resolvem o problema central do produtor rural ou apenas ampliam a complexidade operacional?

3.  O Fetiche da Tecnologia de Ponta

Existe uma espécie de vaidade tecnológica no mercado. Quanto mais sofisticada a solução, maior o prestígio interno. Quanto mais complexa a arquitetura, maior a sensação de avanço.

Mas tecnologia não é espetáculo.

É ferramenta.

Vender IA para um produtor que ainda não possui:

  • Cadastro estruturado de áreas
  • Controle digital básico de custos
  • Histórico organizado de produção
  • Indicadores mínimos de rentabilidade é inverter a lógica do

Antes de algoritmos preditivos, é preciso ter dados organizados. Antes de IoT, é preciso ter processo.

Antes de Big Data, é preciso ter disciplina operacional.

Pular etapas não acelera a jornada digital. Desestrutura-a.

4.  O Efeito Sistêmico da Frustração

O ponto mais grave não está na venda pontual mal ajustada. Está na consequência cultural.

Quando o produtor:

  • Adquire uma solução sofisticada
  • Não consegue implementá-la adequadamente
  • Não percebe retorno claro sobre o investimento
  • Sente-se dependente de consultorias constantes Ele desenvolve uma conclusão perigosa:

“Tecnologia não funciona para mim.” Esse sentimento gera:

  • Resistência à adoção futura
  • Desconfiança em novos fornecedores
  • Aversão a projetos digitais

No longo prazo, o modelo de venda orientado por metas e não por aderência mina o próprio mercado que pretende expandir.

5.  O Desalinhamento Estratégico

O pequeno produtor precisa de:

  • Simplicidade
  • Baixo custo de entrada
  • Implantação rápida
  • Interface intuitiva
  • Retorno claro e mensurável

As grandes empresas, por sua vez, precisam de:

  • Receita recorrente crescente
  • Expansão de módulos
  • Projetos de maior complexidade
  • Aumento de ticket médio

Quando essas duas necessidades não são harmonizadas, instala-se um desalinhamento estrutural.

E o resultado é previsível: frustração de um lado, churn (taxa de cancelamento ou perda de clientes em um determinado período) do outro.

6.  A Ordem Correta da Transformação Digital

A verdadeira jornada digital no pequeno e médio agronegócio deve obedecer a uma sequência racional:

  1. Organização básica de dados
  2. Digitalização simplificada via celular
  3. Consolidação em nuvem acessível
  4. Indicadores mínimos de desempenho
  5. Somente então, tecnologias avançadas

Sem base estruturada, não há inteligência artificial que funcione. Sem disciplina operacional, não há dashboard que salve.

7.  O WhatsApp Como Símbolo da Realidade

Se o WhatsApp já é:

  • Canal de negociação
  • Canal de envio de documentos
  • Canal de coordenação operacional
  • Canal de relacionamento comercial Ele não é um obstáculo à digitalização.

É a porta de entrada.

Ignorar essa realidade é insistir em que o produtor mude sua rotina para se adaptar ao software — quando o caminho inteligente é o inverso.

8.  Encantamento ou Sustentabilidade?

Os “encantadores de serpentes” tecnológicos prosperam no curto prazo.

Mas o agronegócio brasileiro não pode ser orientado por ciclos trimestrais de metas corporativas.

Ele exige visão estrutural.

Se continuarmos empurrando soluções desalinhadas à base da cadeia produtiva, criaremos um paradoxo: quanto mais tecnologia oferecemos, menos confiança geramos.

E confiança, no campo, é ativo estratégico.

A Responsabilidade do Setor

Colocar esse tema em discussão não é atacar empresas de tecnologia. É exigir maturidade estratégica.

O fortalecimento do principal elo da cadeia produtiva — o pequeno e médio produtor rural exige:

  • Humildade tecnológica
  • Ajuste de modelo de negócios
  • Foco real na dor concreta
  • Sequenciamento racional da transformação digital

O Brasil não precisa de mais discursos sofisticados sobre inovação. Precisa de soluções que caibam na realidade da porteira para dentro.

Se o setor tecnológico quiser crescer de forma sustentável no agronegócio, precisará abandonar o espetáculo e abraçar o pragmatismo.

Caso contrário, continuará encantando serpentes — enquanto a base da cadeia produtiva permanece desconfiada, resistente e cada vez mais distante da verdadeira transformação digital.

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