Em 2026 número de concessões a brasileiros no Paraguai dispara

Gilson Milde
Farmnews

Nos 6 primeiros meses de 2026 o número de concessões a brasileiros no Paraguai quase alcançou o total do ano anterior.

No dia 24 de julho, ao defender investimentos permanentes na indústria de defesa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Guerra da Tríplice Aliança e resumiu o episódio dizendo que ‘um belo dia’, o Paraguai resolveu invadir o Brasil.

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A frase provocou uma reação política em Assunção e resultou em uma nota formal de repúdio do governo paraguaio.

Enquanto a discussão olhava para o século XIX, um dado de 2026 apontava para outra direção, ou seja, do número de concessões a brasileiros no Paraguai.

No primeiro semestre, o Paraguai concedeu 29.765 residências a estrangeiros. Desse total, 22.628 foram para brasileiros – 76%.

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Ao longo de todo o ano de 2025, havia sido aproximadamente 23.500 concessões a brasileiros no Paraguai, segundo dados da Dirección Nacional de Migraciones entre janeiro a junho de 2026

Em seis meses, portanto, o número de concessões a brasileiros quase alcançou o total do ano anterior.

Isso é relevante em um país cuja população projetada para 2026 é de 6.460.159 habitantes. Mas é justamente aqui que a análise precisa respirar antes de chegar a uma conclusão.

Residência não é mudança definitiva

Uma autorização de residência indica que alguém decidiu criar uma situação legal no Paraguai.

Não mostra, sozinha, que essa pessoa transferiu a família, fechou a empresa no Brasil, levou patrimônio, abriu uma operação local ou pretende permanecer por muitos anos.

No mesmo conjunto há estudantes, aposentados, profissionais independentes, empregados, empresários e pessoas que apenas desejam manter uma alternativa aberta. Também existem categorias temporárias e permanentes. Transformar todos esses casos em um único ‘êxodo’ produz uma manchete forte, mas uma leitura fraca.

O dado mede documentos concedidos. Não mede raízes econômicas.

Residência é um sinal de intenção. O segundo investimento é um sinal de compromisso.

O sinal, ainda assim, é real

A cautela não diminui o fenômeno. Quando 22.628 brasileiros obtêm residência em apenas seis meses, há uma mudança de comportamento que merece atenção.

O Paraguai deixou de aparecer apenas como destino de fronteira e passou a funcionar, para muita gente, como uma opção concreta de mobilidade, proteção patrimonial, estudo, trabalho ou expansão empresarial.

Os registros de migração não perguntam por que cada pessoa veio. Por isso, seria irresponsável atribuir tudo a impostos, à segurança, à ideologia ou ao custo de vida.

Esses fatores aparecem em entrevistas e relatos, mas variam de caso a caso. O que os dados permitem afirmar é mais simples: um número crescente de brasileiros quer ter o direito de viver e de operar do outro lado da fronteira.

Há razões econômicas por trás dessa escolha?

Há evidências de que o ambiente institucional pesa.

No Indicador de Clima Econômico da FGV, o Paraguai registrou 124,0 pontos no primeiro trimestre de 2026 e liderou os dez países avaliados.

O Brasil ficou em 72,2 pontos. O número de 160 pontos citado no texto original correspondia a outro momento da série e já não deveria ser usado como dado atual.

A TMF Group classificou o Brasil como a terceira jurisdição mais complexa para fazer negócios em 2026, entre as 81 analisadas.

O relatório aponta um sistema tributário em várias camadas, mudanças regulatórias frequentes, exigências de conformidade pesadas e regras nem sempre consistentes entre a União, os estados e os municípios.

Também há uma diferença fiscal visível. O Ministério da Economia e Finanças do Paraguai estimou a pressão tributária em 11,3% do PIB em 2025.

O Tesouro Nacional brasileiro estimou carga de 32,4% do PIB para o Governo Geral no mesmo ano. A direção da diferença é clara, mas os números não são perfeitamente comparáveis: usam escopos institucionais distintos e não informam quanto uma empresa específica pagará em cada país.

O que os números ainda não contam

Permanência. Quantos dos novos residentes permanecerão no Paraguai após dois ou três anos?

Atividade econômica. Quantos abrirão uma empresa operacional, emitirão notas, contratarão e venderão no mercado local?

Capital produtivo. Quanto investimento novo acompanha a residência e quanto é apenas uma reorganização documental ou patrimonial?

Segundo movimento. Quantos farão o segundo aporte depois de conhecerem a logística, a logística de obra, o crédito, a infraestrutura e o tamanho real do mercado?

Essas perguntas são mais importantes do que a contagem bruta de entradas. Um país pode conceder milhares de residências e ainda capturar pouco valor produtivo se não converter parte dessas chegadas em empresas ativas, empregos formais, conhecimento, consumo local e reinvestimento.

O Paraguai também precisa fazer a sua parte

É confortável interpretar cada fila em Migrações como um voto de confiança definitivo. Não é.

A chegada aumenta a demanda por moradia, escolas, saúde, serviços bancários, contabilidade, conectividade e atendimento público. Também expõe os gargalos que o discurso do imposto baixo costuma esconder.

Se o Paraguai quiser transformar essa janela em desenvolvimento, precisará acompanhar a trajetória dos novos residentes e melhorar a experiência após a obtenção do documento: abertura de conta, formalização, obtenção de licenças, infraestrutura, segurança jurídica, qualificação da mão de obra e integração ao mercado local.

A vantagem de receber pessoas insatisfeitas com outro país pode abrir portas. Não sustenta sozinha uma economia mais sofisticada.

O dado que falta não é o número de entradas. E quantos criaram raízes produtivas.

A disputa atual não é militar

O Brasil tem razões legítimas para manter capacidade de defesa e proteger sua soberania. O problema surge quando uma referência histórica simplificada ocupa todo o debate e esconde uma competição muito mais cotidiana entre países.

Hoje, governos competem por pessoas, empresas e capital com base em previsibilidade, regras, serviços, custo, segurança e capacidade de execução. O Paraguai está ganhando atenção nessa disputa. O aumento das residências mostra isso com clareza, mesmo sem comprovar que todos os novos residentes permanecerão.

O teste verdadeiro começa depois da residência

Depois de mais de dez anos vivendo no Paraguai e acompanhando de perto operações brasileiras, aprendi a desconfiar tanto do entusiasmo fácil quanto do pessimismo automático.

Há empresas que encontram aqui uma plataforma real de crescimento. Há outras que descobrem, tarde demais, que residência, RUC e contrato social não resolvem o mercado, a produtividade, a logística ou o capital de giro.

Por isso, eu não chamaria os 22.628 registros de êxodo. Chamaria de aviso. Brasileiros estão criando opções fora do Brasil em uma velocidade que merece ser compreendida, não apenas explorada como propaganda.

A pergunta que fica é outra: esse movimento vai produzir raízes, empresas e reinvestimento ou o Paraguai continuará medindo apenas quantos chegaram?

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Sobre o autor

Gilson Antonio Milde – CEO da Agrarias Solutions, engenheiro agrônomo e consultor em expansão empresarial no Brasil, no Paraguai e na América Latina.

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