Flávio ou Lula, quem interessa ao Paraguai?

Gilson Milde
Farmnews

Se a eleição brasileira fosse analisada exclusivamente pelos interesses estratégicos do Paraguai, qual candidatura, Flávio ou Lula, ofereceria o menor risco e o maior valor? 

A eleição brasileira já entrou em Itaipu!

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Se eu analisasse a eleição brasileira a partir de Assunção, começaria por uma constatação pouco ideológica.

O próximo presidente do Brasil, Flávio ou Lula, terá influência decisiva sobre temas que pesam diretamente no Paraguai. Itaipu, Mercosul, segurança de fronteira, comércio e o ambiente que empurra ou retém investimento brasileiro passam, em diferentes graus, por Brasília.

Essa influência surgiu antes do voto.

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Em 16 de agosto de 2026, Santiago Peña voltou a tratar a negociação de Itaipu como uma conversa constante, agora condicionada pelo calendário eleitoral brasileiro. A tarifa de US$ 19,28 por kW-mês, acordada para 2024, 2025 e 2026, termina neste ano, enquanto a revisão do Anexo C segue sem desfecho definitivo.

Por isso, a pergunta desta edição exige uma resposta diferente daquela de um eleitor brasileiro.

Eu observo cinco interesses paraguaios: Itaipu, Mercosul, segurança na fronteira, acesso ao mercado brasileiro e capacidade de atrair capital e indústria.

Lula oferece uma arquitetura conhecida

Com Lula, o ativo mais evidente é a previsibilidade institucional.

Em 2024, os governos de Santiago Peña e Lula chegaram a um acordo que fixou a tarifa de Itaipu em US$ 19,28 por kW-mês até o fim de 2026. Em março deste ano, os chanceleres ainda relatavam avanços no Anexo C e tratavam de comércio, logística, segurança e integração física como parte da agenda bilateral.

O programa registrado por Lula no TSE não contém um compromisso nominal com o Paraguai.

Ainda assim, é explícito quanto ao desenho regional: promete aprofundar o Mercosul e a integração sul-americana em infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. As regiões de fronteira aparecem como espaços de integração e desenvolvimento, com a presença do Estado e a cooperação entre os vizinhos.

Isso reduz uma parte da incerteza, mas não garante concessões em Itaipu nem vitória em cada negociação.

Significa apenas que o mecanismo é conhecido: negociação estatal, Mercosul forte, projetos regionais e cooperação institucional.

Continuidade também produz atrito

Previsibilidade não significa conforto.

Em 31 de julho, o governo paraguaio entregou uma nota formal de protesto após declarações de Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança. A chancelaria classificou as falas como uma distorção dos fatos históricos.

O ponto mais revelador veio depois da crítica.

A mesma posição oficial reafirmou Itaipu, o Mercosul, a integração física, o comércio e a fronteira como partes de uma relação estratégica conduzida pelo diálogo. O episódio resume o cenário Lula: há risco de ruído político, mas também há uma arquitetura bilateral capaz de manter a agenda em funcionamento.

Flávio promete outra lógica

O plano de Flávio Bolsonaro parte de prioridades diferentes.

Na política externa, propõe diplomacia guiada por profissionalismo e pragmatismo, abertura de mercados e atração de investimentos.

Na economia, promete rever a reforma tributária, reduzir a carga sobre a produção e o consumo, desonerar exportações e investimentos e buscar o equilíbrio fiscal.

Há um dado que considero decisivo: nas 76 páginas do plano registrado no TSE, não encontrei menção nominal ao Paraguai, a Itaipu ou ao Mercosul.

A ausência não prova desinteresse. Mostra que, até a data de corte, esses temas centrais para Assunção não constam como compromissos específicos do documento.

Flávio oferece, portanto, uma possibilidade de mudança com menos informações sobre como tratar os instrumentos bilaterais mais sensíveis. O potencial pode ser alto; a incerteza também.

Na fronteira, Flávio é mais duro

A diferença mais clara está na segurança.

Lula propõe presença estatal, vigilância territorial, combate ao crime transnacional e cooperação com países vizinhos.

Flávio vai além: propõe um Sistema Nacional de Fronteira com Exército, Marinha, Força Aérea, inteligência e tecnologia, dentro de uma política muito mais agressiva contra as facções.

A repressão ao tráfico de armas e drogas interessa a ambos os países.

O risco está no desenho operacional: uma fronteira pensada prioritariamente como barreira pode elevar a fiscalização e o custo para fluxos legítimos se não vier acompanhada de facilitação aduaneira e de coordenação binacional. O plano não permite saber qual efeito prevaleceria.

O paradoxo está na competitividade

Parte da atratividade industrial paraguaia decorre da comparação com os custos de produção no Brasil.

No primeiro semestre de 2026, 62% das exportações das maquiladoras paraguaias foram destinadas ao mercado brasileiro. O Brasil é, ao mesmo tempo, comprador e referência econômica desse modelo.

Se Flávio conseguir reduzir impostos, custos regulatórios e tornar o ambiente brasileiro mais competitivo, poderá diminuir uma das razões que levam empresários a considerar novos projetos no Paraguai.

Seria positivo para o Brasil e, paradoxalmente, poderia reduzir uma vantagem relativa paraguaia.

O movimento inverso também merece cuidado: custos elevados e a complexidade no Brasil podem sustentar a atratividade paraguaia para certos projetos, mas não constituem uma política industrial saudável para o Paraguai.

Essa é uma inferência sobre competição entre ambientes de negócios, não uma intenção atribuída a qualquer candidato.

O Mercosul separa as propostas

Para mim, a maior diferença estratégica está no desenho regional.

Lula registra compromisso claro com um Mercosul mais profundo e o define como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul.

Para um país pequeno como o Paraguai, regras comuns e negociação em bloco podem ampliar a escala e o poder de barganha, embora reduzam a flexibilidade bilateral.

O programa de Flávio fala em abertura comercial, acordos e na integração do Brasil aos grandes polos econômicos, mas não define o papel do Mercosul.

Essa lacuna importa porque o Paraguai precisa saber se o próximo Brasil usará o bloco como plataforma principal ou buscará maior liberdade fora dele.

Minha resposta hoje

Com os dados disponíveis em 20 de agosto de 2026, Lula oferece ao Estado paraguaio menor risco institucional no curto prazo.

Não porque seja necessariamente mais favorável ao Paraguai em cada disputa, mas porque há negociações em curso, interlocutores conhecidos e compromissos explícitos com o Mercosul, a integração energética e a cooperação de fronteira.

Flávio apresenta maior potencial para quem prioriza segurança dura, redução de impostos e abertura comercial, mas traz mais incógnitas em Itaipu e no Mercosul.

Para a previsibilidade diplomática, Lula parte na frente; para endurecer a fronteira, Flávio é mais explícito.

E um Brasil mais competitivo sob Flávio poderia reduzir o diferencial paraguaio.

Nenhum resultado é automático.

Tratados, Congresso, Itaipu Binacional, Mercosul, burocracias estatais e o próprio governo paraguaio limitam o poder de qualquer presidente. Programa eleitoral é intenção, não execução. A pergunta útil não é de qual candidato o Paraguai gosta mais, mas qual configuração protege melhor seus interesses sem criar uma dependência excessiva na relação política.

Hoje, a vantagem de Lula está na previsibilidade. A oportunidade de Flávio está na mudança. E o risco do Paraguai está em confundir a afinidade ideológica com a estratégia de Estado.

E mudando de assunto de Flávio ou Lula, você sabia que nos 6 primeiros meses de 2026 o número de concessões a brasileiros no Paraguai quase alcançou o total do ano anterior. Brasileiros estão criando opções fora do Brasil em uma velocidade que merece ser compreendida, não apenas explorada como propaganda.

A pergunta que fica é outra: esse movimento vai produzir raízes, empresas e reinvestimento ou o Paraguai continuará medindo apenas quantos chegaram? Clique aqui e confira!

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Sobre o autor

Gilson Antonio Milde – CEO da Agrarias Solutions, engenheiro agrônomo e consultor em expansão empresarial no Brasil, no Paraguai e na América Latina.

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