Existe uma pergunta que começa a surgir, ainda que silenciosamente: e se o próximo ciclo de crescimento da América do Sul não passar necessariamente por São Paulo?
Afinal, se você tivesse que decidir hoje onde posicionar sua empresa para os próximos 10 anos, escolheria a cidade que foi o centro do último ciclo econômico ou a que pode estar se preparando para receber o próximo?
Há mudanças econômicas que aparecem primeiro nos relatórios e outras muito mais profundas.
Aquelas que aparecem primeiro nas ruas, no humor das pessoas, nas conversas de corredor, nos cafés, nas reuniões de conselho e na forma como empresários e jovens falam sobre o futuro.
É justamente esse segundo tipo de mudança que está acontecendo agora na América do Sul e, talvez por isso, esteja passando despercebida.
Durante décadas, São Paulo foi o centro gravitacional dos negócios latino-americanos.
O lugar onde estavam os bancos das grandes corporações e dos fundos de investimento, as consultorias, os escritórios de advocacia, os executivos e os talentos.
Tudo parecia convergir para São Paulo.
A cidade se transformou em uma espécie de Wall Street tropical.
Mas existe uma pergunta que começa a surgir, silenciosamente, nos círculos empresariais mais atentos:
E se o próximo ciclo de crescimento da América do Sul não passar necessariamente por São Paulo?
Não porque São Paulo esteja perdendo relevância.
Mas porque outras geografias começaram a ganhar velocidade.
Recentemente, ao alternar entre conversas com empresários paulistas e de Assunção, percebi algo curioso.
A diferença mais importante não estava nos indicadores, nos impostos, nos custos, sequer no tamanho dos mercados.
A diferença estava no humor, e o humor costuma ser um indicador econômico subestimado.
Em São Paulo, o ambiente empresarial continua extremamente sofisticado.
Mas há uma sensação crescente de complexidade. As conversas frequentemente giram em torno de:
- aumento de custos;
- pressão regulatória;
- insegurança jurídica;
- juros elevados;
- carga tributária;
- escassez de mão de obra qualificada;
- dificuldade de expansão.
Muitos empresários ainda acreditam, mas a energia predominante parece ser defensiva.
A pergunta mais comum já não é:
“Como crescer?”
Mas sim:
“Como preservar margem?”
É uma “diferença” sutil e gigantesca.
As empresas que pensam em crescimento tomam decisões diferentes das que pensam em proteção.
Agora, observe Assunção, uma cidade com limitações, em um país com um pequeno mercado interno. A sua infraestrutura ainda está em evolução, com tudo para melhorar: transporte e urbanização ainda enfrentam desafios.
Mas há algo difícil de mensurar em uma planilha: o sentimento predominante é o de construção.
Aqui os empresários falam sobre:
- novas indústrias;
- novos investimentos;
- expansão regional;
- exportações;
- tecnologia;
- energia;
- oportunidades futuras.
A palavra mais repetida não é “problema”. É “possibilidade”.
E isso muda tudo.
Porque os ciclos econômicos raramente começam pelos números. Eles começam na imaginação coletiva.
Primeiro, as pessoas acreditam.
Depois investem.
Depois constroem.
Depois os indicadores aparecem.
A história econômica está repleta de exemplos.
Ninguém olhava para Shenzhen nos anos 1980 e imaginava que se tornaria uma potência industrial global.
Poucos acreditavam em Singapura quando ela ainda era vista como um pequeno porto sem recursos naturais.
Dubai parecia um projeto improvável antes de se tornar um dos maiores centros logísticos e financeiros do planeta.
Os ciclos começam quando uma região passa a acreditar mais no futuro do que nos obstáculos.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em algumas regiões da América do Sul.
Não estamos assistindo à substituição de São Paulo; isso seria uma leitura simplista.
São Paulo continuará sendo uma das cidades mais importantes do continente.
A verdadeira mudança é outra.
O crescimento está perdendo concentração, e a gravidade econômica está se tornando mais distribuída, conectada, regional e eficiente.
A pergunta deixou de ser:
“Qual cidade é a mais importante?”
A pergunta agora é:
“Quais cidades estão criando as condições para atrair o próximo ciclo de investimentos?”
Porque o capital não procura apenas mercado.
Capital procura confiança.
Capital procura previsibilidade.
Capital procura energia.
Capital procura eficiência.
Capital procura segurança.
Capital procura lugares onde o futuro parece maior do que o passado.
E talvez seja por isso que um número crescente de empresários brasileiros esteja olhando para Assunção não como um destino alternativo.
Mas, como uma plataforma complementar, uma extensão estratégica de seus negócios, talvez até um novo ponto de apoio para crescer na América Latina.
A economia costuma mudar duas vezes.
Primeiro no comportamento das pessoas.
Depois, nos indicadores.
Os relatórios ainda contam a história do presente.
Mas o humor das cidades já começou a contar a história do futuro.
E quando isso acontece, os mapas antigos deixam de explicar para onde o capital está indo e talvez estejamos vivendo exatamente esse momento.
Enquanto muitos ainda consideram São Paulo o centro absoluto da gravidade econômica regional, uma nova geração de empresários passou a olhar para outros pontos do mapa.
E alguns desses pontos estão brilhando cada vez mais intensamente.
Entre eles, Assunção, Paraguai.
Se você tivesse que decidir hoje onde posicionar sua empresa para os próximos 10 anos, escolheria a cidade que foi o centro do último ciclo econômico ou a que pode estar se preparando para receber o próximo?
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