sexta-feira, fevereiro 6, 2026
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A mágica do carbono instantâneo: caso do Banco Master/REAG

Projeto ambiental de créditos de carbono teria sido usado para inflar artificialmente o patrimônio de fundos ligados ao Banco Master.

Mas vamos entender o que aconteceu…

O Incra barrou um projeto em Apuí (AM) por ilegalidades e o caso expôs a caixa-preta: terra pública como lastro, “estoque” vendido como “crédito” e a falsa sensação de segurança dada por certificadoras e auditorias.

E o agro brasileiro entrou, de vez, na era em que “carbono” não é só pauta ambiental: é ativo, contrato, dinheiro e reputação. E quando um ativo vira moeda, aparece o que sempre aparece: promessa demais, diligência de menos e gente tentando encurtar caminho entre estimativa e caixa.

O caso envolvendo o Banco Master e a gestora REAG explodiu exatamente nesse ponto. E antes que venham críticas, esse não é um artigo contra crédito de carbono, mas sim uma orientação contra o atalho, aquele que tenta transformar “narrativa” em “crédito”, e “crédito” em “lastro”, sem passar pelo que realmente sustenta um projeto sério: base fundiária limpa, metodologia, monitoramento, verificação e registro.

O estopim: quando o Incra entrou em campo e disse “não”

Em 21 de janeiro de 2026, o Incra publicou uma nota oficial afirmando que vetou um projeto irregular de extração/geração de créditos de carbono ligado ao Banco Master, em Apuí (AM), após análises técnicas e jurídicas apontarem ilegalidades. O elemento que muda tudo: segundo o órgão, o imóvel em questão seria área pública da União, sob gestão do Incra e destinada à reforma agrária. O Incra também rechaçou a ideia de que teria “validado” o projeto e reforçou que não houve finalização de análise técnica de viabilidade, apesar de solicitações e entrega de documentos complementares.

E aqui entra o ponto que o produtor precisa entender como “alerta máximo”: a nota descreve, com nomes e datas, como esse tipo de operação tenta ganhar aparência de normalidade administrativa. Segundo o Incra, em 28 de janeiro de 2025 houve protocolo de “Comunicação de Fato Relevante” informando contrato para geração de ativos, e, posteriormente, a alegação de que o contratante teria identificado que o imóvel era área pública da União sob gestão do Instituto.

Quando o órgão responsável por reforma agrária precisa publicar nota para dizer “isso não passa”, é porque alguém tentou vender normalidade onde havia risco, e esse risco, no agro, sempre começa no mesmo lugar: terra.

O que a imprensa passou a descrever: a “fábrica” do carbono

A repercussão cresceu porque reportagens descreveram que um projeto ambiental de créditos de carbono teria sido usado para inflar artificialmente o patrimônio de fundos ligados ao Banco Master, envolvendo terras públicas da União e valores bilionários sem lastro real no mercado, com menção a investigação e a documentos que embasariam a narrativa.

O Poder360 noticiou o veto e contextualizou que o Incra afirmou ter identificado ilegalidades na operação de geração de créditos em Apuí (AM), classificada como ligada ao Banco Master.

E aqui está o “pulo do gato” do carbono fantasma: confundir, de propósito, uma estimativa com um crédito. Estoque de carbono é uma estimativa de quanto carbono existe em determinada área (em pé, no solo, etc.). Crédito de carbono, no sentido de mercado, é unidade emitida dentro de regras: metodologia, linha de base, monitoramento, verificação independente e registro. Um não vira o outro por vontade, nem por folder, nem por contrato.

Quando alguém vende “estoque” como se fosse “crédito”, está tentando transformar promessa em dinheiro antes da prova existir. Para o produtor, isso vira armadilha porque o contrato é assinado em cima de projeções. Aí vem a vida real: sobreposição, contestação fundiária, embargo, reversão, auditoria, elegibilidade… e o “milagre” vira passivo.

Certificadoras e auditorias: quando o carimbo vira álibi

O segundo dano do caso foi expor o uso de “chancelas” como escudo. Uma reportagem do Poder360 afirmou que auditorias deram “OK” para balanços com dezenas de bilhões em ativos que “simplesmente não existiam”, citando, entre exemplos, “carbono em terras públicas”, e descreveu que, quando questionadas, invocaram sigilo profissional ou alegaram limitações de escopo (como checagens mais formais).

Tradução para o campo: certificadora e auditoria não substituem diligência fundiária, e escopo frouxo é o paraíso de quem promete demais. Se a verificação não entra fundo no lastro (terra, direitos, elegibilidade), o selo vira decoração, e a conta vai para quem ficou com o contrato e com a exposição pública.

FUNAI e Terras Indígenas: a zona vermelha

O agro precisa olhar para isso sem filtro: carbono em áreas sensíveis e Terras Indígenas tem risco jurídico, reputacional e humano altíssimo. Em abril de 2024, a Funai publicou posicionamento orientando povos indígenas a não darem continuidade a tratativas com particulares para projetos de crédito de carbono enquanto orientações e normativas não forem estabelecidas.

O tema ainda aparece em reportagens de organizações e veículos especializados apontando conflitos e impactos de negociações sem consulta adequada, com denúncias e disputas comunitárias, e para o produtor e para o setor, isso importa porque um caso mal conduzido vira manchete internacional em minutos, e vira argumento para barreira, boicote, exigência extra e encarecimento de crédito.

O que muda agora para o produtor, e por que isso é “assunto de porteira”

Depois desse escândalo, a régua sobe para todo mundo. Comprador, banco e seguradora vão exigir trilha auditável mais dura, e o custo da desconfiança costuma cair no colo de quem faz certo.

E se você está sendo abordado por projeto de carbono, trate como trataria uma negociação de terra: com advogado, técnico, prazo e documentação. Projeto sério não tem medo de pergunta. Projeto oportunista vive de urgência.

Como nosso compromisso é com você, produtor, aqui vão sinais práticos para reconhecer quando um “projeto de carbono” é cilada, e sair antes de assinar.

  1. Promessa de dinheiro rápido e alto “sem mudar nada” na fazenda.
  2. Dizem “crédito”, mas não mostram padrão, metodologia, MRV e cronograma de verificação.
  3. Chamam “estoque” de “crédito” (ou inventam “pré-credito” como se fosse dinheiro).
  4. Fundiário tratado como detalhe: cadeia dominial fraca, CAR confuso, sobreposições ignoradas. No caso Apuí, o Incra citou ilegalidades e indicou que se tratava de área pública da União sob sua gestão.
  5. Contrato longo com exclusividade e quase nenhuma saída.
  6. Multa pesada se você desistir, mas pouca obrigação do outro lado.
  7. Você não escolhe verificadora/certificadora: “já vem tudo fechado”.
  8. Proíbem auditor independente do produtor ou restringem acesso a dados e critérios.
  9. Dizem “tem apoio do governo”, mas não entregam documento oficial verificável.
  10. Pagamento depende de “preço futuro” sem piso e sem regra transparente de repasse.
  11. “Garantem” volume de créditos como se fosse safra (ninguém garante emissão sem verificação).
  12. Cessão ampla de direitos ambientais e dados por décadas.
  13. Pressa para assinar: “última janela”, “investidor esperando”.
  14. Auditoria usada como álibi: escopo superficial, sem checagem dura do lastro. O debate sobre “OK” em ativos problemáticos voltou ao centro no caso Master.
  15. Em áreas sensíveis (conflito, entorno de UC/TI), tentam “resolver na conversa”, ignorando orientações institucionais e salvaguardas. A Funai orientou cautela e a não continuidade de tratativas com particulares enquanto não houver normativas.

Trava de segurança do produtor: 5 checagens obrigatórias antes de entrar no projeto de carbono

  1. Diligência fundiária completa antes de qualquer assinatura. Se houver sombra de terra pública/assentamento/sobreposição, pare. O próprio Incra baseou o veto em ilegalidades e natureza pública da área.
  2. Exija por escrito a distinção entre “crédito emitido” e “estimativa/estoque”. Sem isso, você compra narrativa.
  3. Exija metodologia, linha de base, MRV, regra de reversão e o caminho de registro. Sem trilha, é promessa.
  4. Contrato revisado por jurídico que entenda rural + ambiental + carbono. Cláusulas ruins aqui amarram por décadas.
  5. Governança de dados e auditoria do lado do produtor. Quem mediu, quando, como, com que fonte — e como será verificado. Se você não controla sua trilha, você não controla seu risco.

Depois do escândalo, a régua subiu: quem não aguenta pergunta não merece contrato

O caso Banco Master deixou uma lição que o agro não pode desperdiçar: o mercado de carbono não pode ser construído em cima de atalho, nem de “ativo” sem lastro, nem de carimbo sem prova. O Brasil pode liderar, sim, mas só com base inegociável: terra regular, regra clara, verificação séria e responsabilidade real na cadeia de auditoria.

Produtor: não assine por esperança, assine por evidência, e, se o projeto não aguenta pergunta, é porque não aguenta auditoria.

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Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público. Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios. Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto. Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade. Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro. Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

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