O Agrônomo do Futuro: o profissional do agro precisa falar de ROI a todo o momento.
Sempre comento em minhas mentorias e palestras que estamos diante da verdadeira Quarta Revolução Industrial.
A Inteligência Artificial não é apenas mais uma inovação passageira; ela é a tecnologia mais rápida e democratizada que já presenciamos, adotada do dia para a noite em todas as camadas da sociedade.
Em um episódio recente do podcast da McKinsey, o Chairman da América do Norte, Eric Kutcher, classificou o cenário atual como o “momento de re-imaginação” e o “momento de legado” para os líderes de negócios. O alerta dele é contundente e binário: quem assumir o protagonismo da IA levará seus resultados a um novo patamar. Quem se sentar e esperar, simplesmente deixará de ser relevante.
Como atuo diariamente como consultor independente e mentor corporativo no agro, a pergunta que me faço é: o que isso significa na prática para nós, nas trincheiras do agronegócio brasileiro?
Para o agrônomo, a Inteligência Artificial representa a maior oportunidade da nossa geração para darmos um salto sem precedentes em eficiência e relevância.
Durante anos, gastamos um tempo precioso cruzando dados climáticos, analisando históricos de pragas e preenchendo planilhas de visitas. A IA agora faz esse trabalho pesado e analítico em segundos. Isso nos devolve o ativo mais valioso que temos: “O tempo para estarmos ao lado do produtor, focando na estratégia, na rentabilidade e na construção de confiança”.
Como Kutcher cravou de forma brilhante no podcast: “Esta é provavelmente a maior e mais complexa transformação que já vimos — mas ela é 80% transformação de negócios e 20% transformação tecnológica.”
A tecnologia já está disponível na palma da nossa mão. O verdadeiro desafio — e a grande oportunidade para nós — não é entender de algoritmos, mas reimaginar o nosso modelo de atuação. É usar essa eficiência inédita para deixar de ser um mero repassador de informações técnicas e se consolidar como um consultor de negócios indispensável, capaz de traduzir a inteligência artificial em lucro real para o produtor rural.
O Idioma do Agrônomo do Futuro é o ROI: Por que a tecnologia pela tecnologia não paga a conta
No podcast, a diretora editorial Lucia Rahilly levanta o ponto nevrálgico de qualquer inovação: e o Retorno sobre o Investimento (ROI)? O mercado relata que, embora muitas empresas estejam brincando com a IA, poucas estão vendo resultados reais na última linha do balanço.
A resposta de Eric Kutcher para isso é um choque de realidade que serve perfeitamente para o nosso setor: “A razão para isso é que temos vivido no mundo do ‘vamos pegar essa tecnologia, implantar e esperar que coisas boas aconteçam’. E coisas boas até acontecem, mas a conta não fecha. Você não pode depender apenas da tecnologia. Você precisa dar um passo atrás e reimaginar o processo.”
É exatamente aqui que a visão global da McKinsey valida o que eu bato na tecla incansavelmente nas minhas mentorias, artigos e na essência do meu livro, O Agrônomo do Futuro: o profissional do agro precisa falar de ROI a todo o momento.
O produtor rural não acorda querendo comprar um insumo biológico, um drone ou um software de IA. Ele acorda buscando rentabilidade, mitigação de risco e Retorno sobre o Investimento. Se usarmos a Inteligência Artificial apenas para preencher relatórios de visita mais rápido ou escrever e-mails, cairemos na armadilha apontada pela McKinsey. Usaremos a tecnologia para fazer o mesmo de sempre, só que um pouco mais rápido. Isso não gera ROI transformacional.
Para transformar a IA em dinheiro no bolso do produtor e em geração de demanda real, precisamos reimaginar o processo de como fazemos negócios no campo.

O salto de ambição e a fluência tecnológica
Kutcher cita o exemplo de um líder que desafiou sua equipe com uma meta clara: “Eu preciso que vocês passem de 1.000 para 3.000 clientes. E não quero que seja feito do jeito que fazíamos no passado. […] Façam acontecer.”
Como nós, no agro brasileiro, podemos aplicar essa escala? Como um agrônomo pode triplicar sua influência e sua geração de demanda sem triplicar as horas no volante da caminhonete?
A resposta passa pelo que a McKinsey chama de Fluência e Curiosidade Intelectual. A ironia atual, segundo o podcast, é que as gerações mais novas dominam a ferramenta, mas muitas vezes não têm o conhecimento tácito do negócio. O agrônomo sênior, por outro lado, entende tudo de campo, mas precisa da humildade de aprender a “conversar” com a máquina.
O agrônomo que entende de ROI usa a fluência em IA não para ser um programador, mas para processar cenários complexos em segundos. Ele analisa variáveis de safra, histórico de produtividade e flutuações de commodities, e chega na fazenda não com um catálogo de produtos, mas com uma estratégia cirúrgica de Barter ou de proteção financeira.
A tecnologia faz o cálculo pesado e projeta os cenários; o agrônomo, com sua vivência, valida a viabilidade, olha no olho do produtor e prova por A mais B qual será o Retorno sobre o Investimento daquela tomada de decisão. A IA viabiliza a análise profunda, mas é o humano quem fecha a conta.
O verdadeiro risco não é a substituição, é a “Dívida Técnica” (e a perda de ROI)
Quando o assunto é Inteligência Artificial, o instinto inicial de muitos profissionais é o medo da substituição. Eric Kutcher, de forma muito pragmática, afasta esse pânico imediato e aposta na engenhosidade humana. Mas ele alerta para um perigo muito mais real e silencioso: a dívida técnica.
Imagine o seguinte cenário descrito no podcast: uma organização começa a usar milhares de “agentes” de IA simultaneamente. Se não houver governança, como saberemos se as informações e os algoritmos estão corretos ou se estão desatualizados e enviesados?
Para nós, agrônomos, esse é o verdadeiro campo de batalha. No agronegócio, uma recomendação errada de um agente de IA não significa apenas um e-mail mal redigido; significa a perda de produtividade em milhares de hectares, a aplicação ineficiente de um defensivo caro e, em última instância, a destruição do ROI do produtor.
“A IA não vai me substituir nem substituir você, porque a máquina não tem a capacidade de assumir a responsabilidade pelo risco agronômico”.
O papel do profissional, mais do que nunca, atua como um “firewall humano”. É você quem vai auditar a máquina, validar se a recomendação algorítmica faz sentido na realidade daquele talhão específico e garantir que a tecnologia não se torne um passivo, mas sim uma alavanca real de rentabilidade.
Geopolítica, Supply Chain e a busca pela melhor tecnologia
Outro ponto brilhante levantado na conversa da McKinsey é como a tecnologia se tornou geopolítica. Vivemos um momento de reconfiguração de cadeias de suprimentos globais, soberania de dados e a criação de múltiplos ecossistemas tecnológicos competindo entre si.
No agro brasileiro, nós operamos no epicentro exato dessa tensão. Em minhas viagens internacionais, como quando participei do workshop de exportação de pesticidas visitando fábricas em Xangai e discutindo estratégias em Hangzhou, ficou absolutamente claro para mim que as dinâmicas geopolíticas afetam o custo e a disponibilidade de tudo o que usamos no campo, da molécula química à nanotecnologia.
Diante da soberania de dados e das barreiras tecnológicas nacionais, o que devemos fazer? O impacto econômico de não ter a melhor tecnologia disponível é muito maior do que o risco associado a usar uma tecnologia desenvolvida em outra região.
Isso significa que não podemos nos dar ao luxo de fechar os olhos para o que há de mais avançado. A complexidade geopolítica e o excesso de dados exigem líderes que saibam navegar no caos. A tecnologia continuará vindo de todos os lados do globo, mas a inteligência para conectá-la à dor do produtor, garantindo segurança comercial, continuará sendo uma habilidade estritamente humana.
Liderança, vulnerabilidade e a verdadeira gestão de mudança
É tentador acreditar que a Inteligência Artificial vai resolver todos os nossos problemas de planejamento estratégico. Mas a maior parte do tempo de um líder não é gasta desenhando a estratégia, mas sim fazendo gestão de mudança — ou seja, levando as pessoas do ponto A ao ponto B.
No agronegócio, essa é a essência da geração de demanda — um tema tão vital que dedico um treinamento inteiro a ele, o curso Quem Gera Demanda, Lidera. A estratégia para introduzir um novo biológico ou uma estruturação complexa de Barter é apenas 20% do trabalho. Os outros 80% consistem em gerenciar a mudança cultural dentro da porteira. A IA nos ajuda a planejar mais rápido, mas convencer o produtor rural a mudar um hábito que ele carrega há gerações exige empatia, relacionamento e liderança.
E a liderança moderna exige autenticidade. O líder atual é vulnerável. Não há demérito em sentar-se com a nova geração de agrônomos, recém-saídos da faculdade, e pedir que eles ensinem como extrair o melhor de uma ferramenta de IA generativa. A troca é justa e poderosa: os mais jovens trazem a fluência digital; nós, mais experientes, entregamos o “tempo de tela”, a malícia do mercado e o conhecimento tácito que só a sola da bota suja de terra proporciona.
O Horizonte: O veredito para o Agrônomo do Futuro
Muitos me perguntam se a Inteligência Artificial é uma bolha. As valuations das empresas de tecnologia podem até flutuar, mas a transformação que estamos vivendo é real, irreversível e está apenas começando. A próxima década será selvagem e empolgante.
Para navegarmos por esse cenário, traduzo aqui os três conselhos finais da McKinsey para a nossa realidade no agro:
- Nunca perca sua curiosidade intelectual: Antigamente, nos ensinavam a perguntar “por que” cinco vezes para chegar à raiz de um problema. Hoje, com a facilidade de pedir respostas prontas para a IA, o Agrônomo do Futuro precisa perguntar “por que” 50 vezes. Não aceite a primeira resposta do algoritmo. Questione o modelo.
- Nunca pare de aprender: O que hoje consideramos inovação, amanhã será o padrão básico de operação. A mentalidade de aprendizado contínuo é o que separa o profissional obsoleto do consultor indispensável.
- Nunca perca a sua própria voz: É muito fácil identificar quando uma recomendação foi inteiramente terceirizada para a máquina. Falta alma, falta a leitura de cenário e falta o entendimento da sucessão familiar daquela fazenda.
Use a Inteligência Artificial para analisar dados, estruturar processos, calcular o ROI e otimizar seu tempo. Mas, na hora de sentar-se na mesa de negociação, encontre a sua voz.
A máquina comoditiza a informação, mas o pensamento crítico, a construção de confiança e a capacidade de fechar negócios continuarão sendo, para sempre, as grandes assinaturas do Agrônomo do Futuro.
Fonte: https://www.mckinsey.com/capabilities/tech-and-ai/our-insights/how-the-best-ceos-are-meeting-the-ai-moment
Recomendações e Oportunidades para o Agrônomo do Futuro

A vantagem competitiva da agricultura virá, cada vez mais, da capacidade de saber como fazer com que uma estratégia global funcione localmente.
O erro é supor que estratégia global signifique criar uma resposta única para a agricultura desenvolvida em diferentes regiões, países e circunstâncias de produção específicas. Clique aqui e saiba mais!
E hoje, apesar dos notáveis avanços tecnológicos, as margens agrícolas de muitas empresas profissionais estão mais apertadas do que se poderia imaginar.
Isso não é simplesmente o resultado de uma safra difícil ou de condições temporárias do mercado.
Reflete uma mudança estrutural na agricultura global. Clique aqui e saiba mais!
O Farmnews disponibiliza, diariamente, seus estudos de forma gratuita pelo whatsapp. Clique aqui!



