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Shield of the Americas: EUA redesenham alianças e o Brasil?


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A questão para o Brasil não é apenas entender por que ficou fora do Shield of the Americas, mas o que o País pode perder se continuar tratando esse tipo de articulação como algo menor, passageiro ou apenas ideológico.

O encontro batizado de “Shield of the Americas”, realizado em 7 de março de 2026, em Doral, na Flórida, não foi apenas mais uma cúpula hemisférica. Na prática, representou uma tentativa de presidente Donald Trump de redesenhar a relação dos Estados Unidos com a América Latina a partir de três eixos centrais: o combate militarizado ao narcotráfico, a reorganização de alianças políticas ideologicamente convergentes e a contenção da influência chinesa na região.

 A cúpula reuniu líderes de Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago e foi apresentada pela Casa Branca como parte do lançamento de uma nova arquitetura regional, centrada na Americas Counter Cartel Coalition, com um discurso baseado em soberania, segurança de fronteiras e prosperidade econômica. Kristi Noem, já no novo cargo de enviada especial da coalizão, afirmou que a proposta é atuar de forma conjunta para defender a soberania, a segurança e a prosperidade econômica dos países-membros. Pois bem: enquanto esse novo “clube da prosperidade” avança, Brasil, México e Colômbia ficaram fora da lista.

A ausência do Brasil

A ausência do Brasil não é um detalhe cerimonial, é um sinal político. Quando Washington cria uma mesa paralela com países da região para discutir segurança, cartéis, infraestrutura crítica e a influência chinesa, que alcançou cerca de US$518 bilhões em comércio com a América Latina em 2024 e mais de US$120 bilhões em empréstimos à região, não está apenas escolhendo convidados. Está indicando com quem pretende construir confiança, priorizar cooperação e, potencialmente, direcionar investimentos e projetos estratégicos.

É justamente aqui que o Brasil deveria estar profundamente atento. Quando segurança e economia passam a caminhar juntas, quem fica fora da coordenação política tende a perder espaço também na economia real. E isso vale para portos, energia, telecomunicações, fertilizantes, alimentos, proteína animal, corredores logísticos e cadeias industriais.

O Brasil continua sendo grande, por enquanto, mas grandeza, sozinha, não garante centralidade quando novas preferências começam a ser organizadas sem sua participação. Essa conclusão é uma inferência estratégica sustentada pelo foco americano em infraestrutura, energia e alinhamento regional.

No agro, o custo e o risco podem aparecer mais rápido do que parece

Para o agro brasileiro, esse talvez seja o ponto mais sensível. Quando segurança, logística, energia e cooperação econômica passam a andar juntas, as oportunidades do campo também entram no tabuleiro. Um bloco politicamente coordenado pode favorecer novos fluxos de financiamento, processamento, exportação e investimento em proteínas, grãos, biocombustíveis, alimentos processados, armazenagem e infraestrutura.

Não é preciso que exista um tratado agrícola formal para que isso comece a produzir efeitos, basta que determinados países passem a ser vistos como parceiros preferenciais em cadeias estratégicas. Essa leitura ganha ainda mais força quando se observa que o acordo recente entre Estados Unidos e Argentina foi além do comércio tradicional e incluiu previsibilidade regulatória, abertura para bens agrícolas e prioridade política para investimentos e minerais críticos.

A Argentina, aliás, já oferece uma pista concreta de como esse alinhamento pode se traduzir em oportunidade. Em fevereiro de 2026, Buenos Aires e Washington assinaram um acordo recíproco de comércio e investimento que prevê redução de barreiras para diversos produtos, maior segurança para investidores americanos e cooperação em setores sensíveis, incluindo telecomunicações e minerais como lítio e cobre.

Isso mostra que, para aliados estratégicos, os Estados Unidos estão dispostos a integrar política externa com negócios, energia, tecnologia e cadeia produtiva. E, quando isso acontece, o agro deixa de ser apenas exportação: passa a fazer parte de um arranjo mais amplo de poder econômico.

É aqui que o Brasil precisa prestar atenção. O risco não é que as oportunidades desapareçam, mas que mudem de endereço. Parte do que poderia passar naturalmente por cadeias brasileiras pode começar a ser capturada por vizinhos mais próximos desse novo eixo de cooperação. Isso vale para alimentos, proteína animal, processamento industrial, fertilizantes, logística e energia.

Em um cenário de reorganização regional, não basta ser grande produtor, é preciso também estar politicamente inserido nas mesas em que as prioridades são definidas.

Outro caso interessante é da tilápia em Itaipu, na fronteira com o Paraguai. Em janeiro de 2026, o Ministério da Pesca e Aquicultura informou que a nova lei sancionada no Paraguai criou a base jurídica necessária para revisar o acordo bilateral Brasil–Paraguai, que hoje impede o uso de espécies exóticas no reservatório. Em outras palavras, abriu-se o caminho formal para discutir a liberação da tilapicultura em Itaipu.

Mas o ponto mais importante não é apenas o peixe, é a cadeia econômica que pode surgir daí. Tilápia em Itaipu significa potencial para ração, tecnologia aquícola, processamento, logística refrigerada, emprego, desenvolvimento regional e exportação. Ou seja, uma oportunidade agroindustrial completa, ancorada em um ativo binacional de enorme escala. E o que mais o Brasil precisa de investimento hoje para se tornar ainda mais competitivo nos próximos anos? Agroindustrialização!

No mesmo ritmo de oportunidades, o Panamá se torna ainda mais sensível no debate sobre portos e rotas; Guiana e Trinidad e Tobago reforçam a conexão energética; Argentina amplia sua densidade em alimentos, minerais e investimentos; e países menores podem ganhar relevância por sua posição logística ou por seu alinhamento político. E quando esses movimentos se conectam, o resultado é um novo mapa regional em que segurança, infraestrutura, alimentos, energia e capital deixam de ser temas separados.

Fora da articulação, o Brasil pode perder mais do que protagonismo

No fim, a grande questão para o Brasil não é apenas entender por que ficou fora. A questão central é avaliar o que o País pode perder se continuar tratando esse tipo de articulação como algo menor, passageiro ou apenas ideológico.

O Shield of the Americas pode até ter nascido sob o discurso do combate aos cartéis, mas seu alcance potencial é muito maior: reorganizar influência, selecionar parceiros estratégicos e abrir caminhos preferenciais para investimento, cooperação e presença regional.

Para o Brasil, a lição é simples: em geopolítica, muitas vezes a primeira perda não é comercial nem militar. A primeira perda é de tempo, é perder o momento de estar à mesa antes que as decisões ganhem forma, os interesses se consolidem e o jogo passe a valer de verdade.

E a reflexão que fica é incômoda, mas necessária: o que hoje custa mais politicamente ao governo brasileiro, reavaliar seus laços estratégicos com China, Irã e Rússia ou reconhecer facções criminosas como organizações terroristas? Talvez tenhamos aí a resposta de o porquê ficamos fora pelo menos nesse primeiro momento do Shield of the Americas.

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Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público. Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios. Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto. Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade. Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro. Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

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