Por que o agronegócio brasileiro pode pagar a conta de decisões políticas que não controla?
Introdução — Quando o mundo muda e o Estado finge que nada mudou.
Há momentos na história em que o mundo muda devagar. E há
momentos — mais raros e mais perigosos — em que ele muda rápido demais para quem insiste em olhar pelo retrovisor. Estamos vivendo um desses momentos.
O agronegócio brasileiro sempre foi um setor acostumado à
adversidade. Produziu com infraestrutura precária, crédito caro, insegurança jurídica e uma digitalização claudicante. Ainda assim, venceu. Mas venceu porque o jogo, até pouco tempo atrás, ainda permitia erros estratégicos sem punição imediata.
Esse jogo acabou.
Nos próximos cinco anos, a geopolítica deixará de ser pano de fundo e passará a ser protagonista. E o Brasil, por decisões conscientes de seu governo, está se posicionando de forma perigosamente desalinhada dos países que dominam tecnologia, capital, inovação e acesso a mercados premium.
O novo mundo: não é globalização, é alinhamento.
O discurso da globalização morreu — mas ninguém teve a coragem de avisar oficialmente. O que existe hoje é um mundo organizado em
blocos geopolíticos, definidos por interesses econômicos, tecnológicos, militares e, sim, ideológicos.
Nesse cenário, países produtores de alimentos não são neutros. São estratégicos. Quem alimenta o mundo precisa escolher bem com quem anda, porque escolhas erradas custam mercado, tecnologia e tempo — e tempo, em economia, não se recupera.
O erro central do Brasil: alinhar-se a quem consome, não a quem desenvolve.
Ao optar por um alinhamento político e diplomático cada vez mais próximo de países como Rússia, China, Irã e Colômbia, o Brasil comete um erro estrutural:
confunde mercado comprador com polo de desenvolvimento tecnológico.
Esses países podem comprar commodities. Mas não lideram — com exceções pontuais — as fronteiras tecnológicas das quais o agronegócio brasileiro depende para evoluir.
Enquanto isso, o distanciamento progressivo de países como Estados Unidos, Israel, Argentina e Paraguai cobra um preço silencioso, porém cumulativo.
Consequência nº 1 — Atraso tecnológico disfarçado de soberania.
As principais tecnologias que sustentam o agro moderno vêm de países democráticos e alinhados ao Ocidente:
- sensores e IoT agrícola
- softwares de gestão e ERPs rurais
- inteligência artificial aplicada à produção
- biotecnologia, genética e edição gênica
- satélites, imagens e conectividade de precisão
Ao se afastar desses polos, o Brasil não perde acesso imediato — perde prioridade, parcerias e velocidade de adoção. O resultado é um atraso tecnológico que não aparece no discurso oficial, mas surge na planilha de custos e na perda de competitividade.
Consequência nº 2 — ESG vira instrumento de exclusão comercial.
Países europeus e norte-americanos já deixaram claro:
quem não comprovar sustentabilidade, rastreabilidade e governança ficará fora.
Não se trata de virtude moral. Trata-se de estratégia econômica.
Sem alinhamento político, o Brasil será tratado como fornecedor de risco. E fornecedores de risco enfrentam:
- barreiras técnicas
- exigências ambientais mais duras
- taxações indiretas
- auditorias constantes
Tudo isso recai sobre o produtor, que passa a produzir mais documentos do que alimentos.
Consequência nº 3 — Dependência excessiva da China: o conforto que vira armadilha.
A China compra muito. Mas compra ditando regras.
Quando um país concentra mercado, perde poder de barganha. O Brasil corre o risco de transformar seu agro em refém comercial, aceitando preços, prazos e condições impostas — porque não terá alternativas.
Diversificação de mercado não é luxo. É sobrevivência estratégica.
Consequência nº 4 — Crédito mais caro e menos abundante.
Fundos internacionais não investem apenas em empresas. Investem em países.
E países mal posicionados geopoliticamente pagam mais caro pelo capital.
Isso significa:
- juros maiores
- menos linhas verdes
- menos funding para inovação
- mais dificuldade para startups e agtechs
O discurso ideológico custa caro quando chega na forma de planilha financeira.
Consequência nº 5 — O produtor como amortecedor do erro estatal.
Quando o Estado erra, ele não assume o prejuízo. Ele transfere. E quem sempre absorveu esse impacto foi o produtor rural.
Mais impostos, mais exigências, mais insegurança jurídica — tudo embalado em discursos grandiosos sobre protagonismo internacional que não se sustentam na prática.
O agro ainda é forte, mas não é invulnerável.
O agronegócio brasileiro continua sendo um dos mais eficientes do mundo. Mas eficiência sem estratégia geopolítica vira resistência passiva — e resistência passiva, cedo ou tarde, cede.
Os próximos cinco anos serão decisivos.
Ou o Brasil realinha sua política externa aos países que desenvolvem tecnologia, capital e inovação, ou continuará exportando volume enquanto importa dependência.
Países não têm amigos. Têm interesses.
E o agronegócio brasileiro não pode continuar pagando a conta de decisões que não ajudou a tomar.
Sidney Regi Junior – COO da Consultoria AgroSinal www.agrosinal.com.br
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