Quando homens com biografias tão distintas apostam, simultaneamente, no mesmo recurso, a cana, é o sinal de que algo grande está se formando!
Eike Batista e André Esteves chegaram, por caminhos opostos, à mesma conclusão. Quando dois dos maiores empresários brasileiros disputam o mesmo horizonte, o País inteiro deveria prestar atenção, porque quem ganha é o Brasil.
Há uma cena curiosa se desenhando no capitalismo brasileiro. De um lado, Eike Batista, um empresário visionário que construiu um dos maiores conglomerados de recursos naturais da história do país, atravessou a tempestade e retorna ao tabuleiro com a serenidade de quem aprendeu lições raras. De outro, André Esteves, o estrategista à frente do BTG Pactual, que transformou um banco de investimentos em um dos centros de gravidade da economia real brasileira.
Os dois apostam, cada um a seu modo, no mesmo recurso aparentemente trivial: a cana-de-açúcar. Não é coincidência. É convergência. E talvez seja o sinal mais claro de que o Brasil está diante de uma janela histórica.
A planta que pode reescrever a matemática do setor
A aposta de Eike chama-se Supercana, uma variedade geneticamente melhorada, desenvolvida ao longo de duas décadas pelos brasileiros Luis Carlos Rubio e Sizuo Matsuoka, detida pela empresa BRXe. Os números, se confirmados em escala industrial, são vertiginosos: enquanto a cana convencional rende cerca de 83 toneladas por hectare no Brasil, as principais variedades da BRXe alcançam em média 181 toneladas, com a mais produtiva chegando a 208. Em termos práticos, o triplo de etanol e até doze vezes mais biomassa por hectare.
O paralelo que Eike costuma traçar tem fundamento técnico real: a revolução do eucalipto na celulose. Trocar o pinheiro de 20 anos pelo eucalipto de sete anos transformou o Brasil em superpotência do papel, e para quem não sabe, quem foi o responsável por introduzir e fomentar o plantio em larga escala do eucalipto no Brasil, vindo da Ásia, por volta das décadas de 1950/1960, foi o seu pai, Eliezer Batista. Se a Supercana entregar o que promete, repete o mesmo movimento na energia, com efeitos potencialmente muito maiores, porque o mercado-alvo não é mais nacional, é planetário.
O projeto piloto em Quissamã, no norte fluminense, perto do Porto do Açu, já captou US$ 500 milhões do grupo Brasilinvest, de Mário Garnero, com recursos do Abu Dhabi Investment Group, dos Emirados Árabes, e da General Finance, dos Estados Unidos. A meta é produzir 1 bilhão de litros de etanol e 1 milhão de toneladas de biomassa por ano. O início da operação industrial está previsto para 2028.
O movimento estratégico do BTG
Enquanto Eike trabalha a fronteira tecnológica, André Esteves executa o movimento de consolidação. Em setembro de 2025, o BTG Pactual liderou um aporte de R$10 bilhões na Cosan, o conglomerado de Rubens Ometto que controla a Raízen, maior produtora mundial de etanol de cana. O banco entrou com R$4,5 bilhões e tornou-se o maior acionista individual da companhia, com cerca de 23% do capital. Ometto manteve o controle formal, mas o poder passou a ser compartilhado em um acordo de acionistas de vinte anos.
Não é uma transação qualquer. É a fusão simbólica do capital financeiro com o capital industrial sucroenergético, num momento em que o setor enfrenta endividamento e um ciclo desfavorável do açúcar. É a tese clássica de Esteves: entrar com convicção em ativo estratégico, quando o ciclo está virando.
Vale lembrar que o BTG já tem exposição relevante em florestas, infraestrutura, energia e agronegócio. A entrada na Cosan completa um mosaico cuidadosamente desenhado. Esteves não está fazendo um trade, está posicionando o partnership de 410 sócios para o ciclo que vem depois do petróleo.
SAF: o primeiro mercado garantido
A pergunta de bilhões: Por que a cana? A resposta vem abreviada: SAF, Sustainable Aviation Fuel ou Combustível Sustentável de Aviação. A aviação responde por cerca de 3,5% das emissões globais de CO₂ e é um dos setores mais difíceis de descarbonizar. Eletrificar aeronaves de longo curso, com a tecnologia atual, não é viável. A solução escalável de curto e médio prazo é o combustível produzido a partir de fontes renováveis, e a rota mais competitiva no Brasil é o Alcohol-to-Jet, que parte do etanol.
A demanda global por SAF deve alcançar 17 milhões de toneladas anuais até 2030, segundo estudo da Kearney em parceria com o Fórum Econômico Mundial. A Europa já obriga mistura mínima desde 2025; os Estados Unidos buscam 3 bilhões de galões anuais até 2030 e 100% de SAF na aviação americana até 2050. A oferta global está dramaticamente atrás: a capacidade instalada ao final de 2024 era de apenas 4,4 milhões de toneladas. O mercado, em síntese, já está vendido. E o Brasil é, nas palavras da própria ANAC, candidato natural à “OPEP do SAF”: terra, sol, água, etanol competitivo e infraestrutura existente.
O bagaço: a segunda revolução, talvez maior que a primeira
Aqui está o ponto que muitos analistas têm subestimado, e que Eike quanto Esteves enxergam com clareza: o etanol é apenas metade da história. A outra metade, e talvez a mais transformadora, é o bagaço.
Tradicionalmente, o bagaço da cana servia para queimar nas próprias usinas e gerar eletricidade. Era subproduto. Hoje, é insumo estratégico para três cadeias simultâneas de altíssimo valor agregado.
A primeira é o etanol de segunda geração, o chamado E2G, em que a Raízen, agora com o BTG na controladora, vem investindo bilhões. O E2G extrai etanol da própria fibra celulósica do bagaço, multiplicando a produção sem aumentar a área plantada. É a tese tecnológica oposta à Supercana, mas que persegue exatamente o mesmo prêmio: mais litros por hectare.
A segunda é a bioeconomia de embalagens, o bagaço, combinado com resinas especiais, permite fabricar pratos, copos, talheres e embalagens biodegradáveis em escala industrial. Eike é particularmente vocal sobre essa frente: só os Estados Unidos consomem cerca de 500 milhões de canudos por dia. A pressão regulatória contra o plástico de uso único, já lei na União Europeia, em estados americanos, em diversos países asiáticos, cria um mercado de centenas de bilhões de dólares para quem tiver matéria-prima competitiva. Hoje, esse mercado é dominado pela China com papel; o Brasil tem condições naturais de dominá-lo com biomassa de cana.
A terceira é a bioquímica avançada. Da celulose do bagaço se produzem bioplásticos, bioquerosene, açúcares industriais, ácidos orgânicos, fibras técnicas. É a base de uma indústria química renovável que substitui derivados de petróleo em dezenas de aplicações, de cosméticos a peças automotivas.
Quando se soma etanol convencional, E2G, SAF, embalagens biodegradáveis e bioquímicos, o que se desenha não é uma commodity. É uma plataforma industrial. E é exatamente por isso que dois empresários tão diferentes e tão geniais à sua maneira, estão chegando ao mesmo destino por caminhos opostos.
O Brasil que pode emergir “desta disputa”
O ponto central, e o que mais merece atenção da opinião pública, é que esta convergência não é uma rivalidade comum entre titãs. É uma disputa em que o resultado, qualquer que seja, beneficia o país.
Se a Supercana de Eike entregar o que promete, o Brasil ganha um salto de produtividade que multiplica a competitividade do setor sem expandir fronteira agrícola, exatamente o que a agenda ambiental global exige. Se o BTG e a Cosan consolidarem a Raízen como campeã global de SAF e E2G, o Brasil ganha uma multinacional verde com peso comparável às majors de petróleo. E se as duas estratégias avançarem em paralelo, o Brasil simplesmente assume uma liderança que poucos países podem disputar.
O país tem cerca de 9 milhões de hectares plantados com cana. Se uma fração migrar para variedades de alta produtividade, e se a infraestrutura de refino para SAF avançar no ritmo desenhado por Petrobras, Raízen e Acelen, falamos de um mercado capaz de adicionar centenas de bilhões de dólares ao PIB nas próximas duas décadas. Eike menciona o número de US$4,5 trilhões para a economia brasileira; ainda que se aplique desconto à empolgação habitual do empresário, a ordem de grandeza do prêmio é inequívoca.
Há uma ironia produtiva nessa história: o Brasil descobre novas reservas de petróleo na margem equatorial no exato momento em que o mundo se organiza para superar o petróleo. A aposta na cana é a tese inversa e talvez a mais inteligente do ponto de vista estratégico. Vendemos um produto cuja demanda só cresce com a pressão climática, e cuja produção depende exatamente do que o Brasil tem em abundância: sol, terra, água, conhecimento agronômico e décadas de experiência industrial acumulada desde o Proálcool.
Dois gênios, uma mesma intuição
Eike Batista e André Esteves são empresários de gerações distintas, temperamentos opostos e estilos de execução quase antagônicos. Um construiu sua trajetória com a ousadia do explorador que enxerga oportunidade onde poucos olham; o outro, com a precisão do estrategista que sabe exatamente quando entrar e quanto pagar. Ambos são, cada um em sua chave, talentos raros do capitalismo brasileiro.
Que homens com biografias tão distintas estejam apostando, simultaneamente, no mesmo recurso e no mesmo ciclo é o sinal mais credível possível de que algo grande está se formando. Eike traz a tecnologia disruptiva e a audácia de uma aposta de longo prazo. Esteves traz o capital paciente e a sofisticação de quem constrói cadeias inteiras de valor.
O Brasil, no meio, recebe os dois sinais e seria imprudente ignorá-los. O século XXI, se o país souber jogar, será verde, doce e muito próspero.
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