A JBS, maior processadora de carne do planeta, virou alvo de investigações antitruste nos EUA. E o que for decidido em Washington vai chegar ao campo brasileiro!
O mercado global de carne está passando por uma das maiores turbulências políticas das últimas décadas. Nos Estados Unidos, produtores rurais, senadores e o próprio Departamento de Justiça americano apontam para o mesmo problema: um punhado de empresas controla quase tudo que é abatido, processado e vendido no maior mercado consumidor de proteína animal do mundo e o produtor independente está ficando para trás.
No centro dessa disputa está uma empresa brasileira. A JBS, maior processadora de carne do planeta, que virou alvo de investigações antitruste, pressão legislativa e acusações públicas nos EUA. E o que for decidido em Washington nos próximos meses vai chegar ao campo brasileiro, no preço da arroba, nas exportações e nas regras do jogo global.
Como a JBS chegou onde chegou nos EUA
A JBS entrou nos Estados Unidos em 2007, comprando a Swift e em 2009, comprou a Pilgrim’s Pride. Essas aquisições foram financiadas em grande parte pelo BNDES, o banco de desenvolvimento brasileiro, que usou dinheiro público para bancar a expansão global da empresa.
O problema é que parte desse financiamento foi viabilizado por corrupção. Em 2020, a SEC (Securities and Exchange Commission) formalizou acusações contra os irmãos Joesley e Wesley Batista por violações da lei americana anticorrupção no exterior. O esquema envolvia aproximadamente US$150 milhões em propinas a um ex-ministro da Fazenda do Brasil (Guido Mantega) para garantir acesso facilitado ao BNDES. Para encerrar a investigação criminal, a J&F Investimentos pagou US$256 milhões ao Departamento de Justiça americano. A empresa também admitiu ter pago propinas a mais de 1.800 políticos brasileiros ao longo de uma década. O dinheiro público brasileiro, desviado pela corrupção, ajudou a construir um império que hoje domina o mercado de carne americano.
O tamanho da concentração e o que ela faz com o produtor
Para entender por que os pecuaristas americanos estão furiosos, basta ver dois números. Em 1980, as quatro maiores processadoras de carne dos EUA controlavam 36% do mercado. Hoje, quatro empresas, JBS, Tyson, Cargill e National Beef, controlam 85% de todo o abate bovino americano.
Essa concentração tem um custo direto para quem cria o boi. A fatia do pecuarista americano em cada dólar gasto com carne no varejo caiu de 70 centavos em 1970 para menos de 37 centavos hoje e o processador ficou com o resto. Ou seja, o produtor cria o animal, mas quem define o preço é quem abate.
O resultado está no campo: a idade média do pecuarista americano ultrapassa 58 anos. O rebanho bovino dos EUA está no menor nível desde a década de 1950, 86 milhões de cabeças para alimentar 320 milhões de pessoas. O país que foi símbolo de autossuficiência em proteína animal agora depende de importação para fechar as contas. E é esse o contexto que jogou os rancheiros americanos no microfone do CPAC.
A arma que os americanos querem de volta: a etiqueta de origem
E aí já sabem né? Toda ação gera uma reação. Até 2015, os supermercados americanos eram obrigados por lei a informar ao consumidor onde o boi tinha nascido, sido criado e abatido. A regra se chamava MCOOL — Mandatory Country of Origin Labeling. Era simples: você chegava na gôndola e sabia se estava comprando carne americana, brasileira ou argentina.
Em 2015, o Congresso americano revogou essa lei, a pressão veio dos grandes processadores globais, que compravam carne de vários países, misturavam no processo e não queriam que o consumidor soubesse a diferença. A OMC deu cobertura jurídica, autorizando Canadá e México a aplicarem mais de US$ 1 bilhão em tarifas de retaliação caso a regra permanecesse.
Sem o MCOOL, carne importada pode ser misturada à americana e vendida sem distinção. A diferença de custo chega a US$ 0,57 por libra, uma vantagem bilionária anual para os grandes processadores globais, e uma derrota silenciosa para o produtor local. Os rancheiros americanos querem essa regra de volta, e já existe um projeto tramitando no Senado. A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, já se reuniu com a coalizão de produtores no USDA, sinal claro de que o tema entrou na agenda política real.
Se o MCOOL voltar por lei, o cenário para a carne brasileira nos EUA muda. O consumidor americano vai saber o que está comprando, e vai ter a opção de pagar mais pela origem doméstica.
Quando o Investigado Financia o Investigador
Aqui está o ponto que torna essa história mais complexa do que parece. No início de 2025, uma empresa do grupo JBS fez a maior doação individual ao comitê de posse do presidente Trump: US$ 5 milhões. No mesmo período, a JBS dobrou seus gastos com lobbying em Washington e estreou na Bolsa de Nova York.
Em novembro de 2025, o Departamento de Justiça abriu investigação antitruste formal contra as quatro grandes processadoras por suposta manipulação de preços, mecanismo que derruba o preço pago ao produtor enquanto eleva o preço cobrado ao consumidor, capturando a margem dos dois lados. Em março de 2026, o Senado apresentou projeto para proibir que uma mesma empresa controle múltiplos elos da cadeia de proteína animal.
Em síntese: a empresa que financia o governo é a mesma que o governo está investigando. Não é contradição por acaso, é como o poder funciona quando os interesses são grandes o suficiente. E essa ambiguidade é exatamente o que protege a JBS no curto prazo e o que torna o cenário incerto para o médio e longo prazo.
O que o produtor brasileiro precisa calcular agora
Essa disputa em Washington não é assunto de diplomacia. Ela afeta a arroba negociada no Mato Grosso, o planejamento de exportação de qualquer frigorífico e o preço do boi gordo nos próximos anos.
Existem riscos reais, pois, se o MCOOL for reinstaurado, a carne brasileira in natura perde espaço no varejo americano. Se a ação antitruste desmembrar ativos da JBS nos EUA, o maior comprador global de proteína animal opera com capacidade reduzida e isso se reflete no mercado interno.
E se o protecionismo tarifário de Trump se ampliar, o Brasil precisará de destinos alternativos consolidados. Porém existem oportunidades igualmente reais. Os EUA têm o menor rebanho bovino em 70 anos e precisam importar para suprir sua demanda.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, a janela está aberta e pode durar anos, independente do desfecho jurídico da JBS. Há ainda uma dimensão doméstica que raramente aparece nesse debate: a concentração que os rancheiros americanos denunciam no CPAC é a mesma lógica que opera aqui dentro.
Poucos frigoríficos definem o preço pago na porteira, o produtor aceita ou fica com o boi no pasto. Não é lei da natureza, é resultado de uma concentração de poder que ninguém teve interesse em desafiar. A diferença entre o campo americano e o brasileiro não está no problema. Está na postura: o rancheiro americano foi ao microfone, levou a pauta ao Congresso e está forçando mudanças estruturais no maior mercado de carne do mundo.
E quando essas mudanças chegarem, e vão chegar em breve, o produtor brasileiro que entender o jogo antes vai sair na frente. Porque quando o maior mercado consumidor de carne do mundo se reorganiza, ninguém pode ser o último a saber.
É esse o compromisso da Farmnews: traduzir o que está acontecendo lá fora em decisões melhores aqui dentro. Porque aqui o nosso compromisso é com o produtor brasileiro!
E mudando de assunto, a pergunta que merece resposta é menos óbvia do que parece: o Brasil está vendendo para a China, ou está entregando para a China?
Quando a China controla o terminal de onde sai sua soja produtor, os vagões que a transportam e a empresa que a negocia, ela tem influência direta sobre o preço FOB que você recebe, mesmo que você nunca perceba. Quem controla a infraestrutura de escoamento define, na prática, qual é o custo de base do produtor. E quem define o custo de base tem poder sobre a margem.
Vale destacar também que a margem da soja e da agricultura em geral está cada vez mais incerta e volátil, especialmente com as turbulências geopolíticas que se somam aos desafios operacionais do campo.
Aliás, temos ressaltado que sistemas produtivos eficientes e produtivos podem muitas vezes não ser lucrativos. Isso mostra que produtividade alta, sozinha, não garante resultado econômico positivo.
Os custos de produção estão cada vez mais incertos, voláteis e em alta, assim como os preços dos grãos. Estar exposto sem uma gestão de risco e estratégias de proteção, em um cenário de margem cada vez mais apertada é algo que tem se tornado proibitivo.
O Farmnews disponibiliza, diariamente, seus estudos de forma gratuita pelo whatsapp. Clique aqui!





