spot_img

Top 5 desta semana

Artigos relacionados

China não está comprando apenas Soja, está comprando o Brasil

- Advertisement -

A pergunta que merece resposta é menos óbvia do que parece: o Brasil está vendendo para a China, ou está entregando para a China?

Existe uma imagem que todo produtor brasileiro conhece bem: o navio carregado de soja saindo do Porto de Santos em direção à China. É uma imagem de prosperidade, de mercado, de dinheiro entrando no país. Mas quando colocamos a lupa da análise profunda, a verdade é que esse navio, com crescente frequência, foi carregado em um terminal construído por uma empresa estatal chinesa, transportado por trens e vagões comprados por uma empresa estatal chinesa, levando soja negociada por uma empresa estatal chinesa, e vai desembarcar em um porto no Pacífico inaugurado pessoalmente pelo presidente da China. A pergunta que merece resposta é menos óbvia do que parece: o Brasil está vendendo para a China, ou está entregando para a China?

A China tem aproximadamente 9% das terras aráveis do mundo e 6-7% dos recursos hídricos, mas abriga 20% da população mundial. O crescimento econômico acelerado e a urbanização agravaram problemas geográficos fundamentais. Cerca de 40% dos solos da China estão degradados demais para a agricultura por causa de poluição, erosão e uso excessivo, enquanto 19% das terras agrícolas estão contaminadas por metais pesados como cádmio, arsênico e chumbo.

É a equação mais angustiante da geopolítica contemporânea: o país mais populoso do mundo tem terra demais para construir e terra de menos para produzir. A solução que Pequim encontrou foi deixar de tentar resolver o problema dentro de casa e passar a resolver fora adquirindo peça por peça, o controle sobre a cadeia alimentar global. E o Brasil, com seu Cerrado, sua soja, seus portos e sua dependência histórica de capital externo, virou o principal alvo dessa estratégia.

Em 2023, o Brasil respondia por cerca de um quarto das importações agrícolas da China, enquanto a participação dos EUA havia caído para cerca de 14%. Mas o que os números de comércio não mostram é o movimento mais profundo que acontece por baixo deles: a China não está apenas comprando o que o Brasil produz, ela já compra o sistema que produz.

As duas décadas do avanço do dragão chinês em terras tupiniquins

A estratégia chinesa no agro brasileiro não é improviso, é um projeto de Estado executado ao longo de mais de duas décadas, atravessando todos os governos brasileiros, de Lula a Bolsonaro, sem que nenhum deles tenha reagido com a seriedade que o movimento exige. Para o produtor entender o que está em jogo, é preciso ver a linha do tempo completa, e aqui deixo claro é que uma visão de relações internacionais e geopolítica:

2003–2010: Lula 1 e Lula 2, a abertura estratégica:

Quando Lula chegou ao poder pela primeira vez, em 2003, um dos pilares de sua política externa foi a aproximação com o Sul Global e, em especial, com a China. Do ponto de vista comercial, a decisão foi acertada: o Brasil precisava de mercados para sua soja em expansão, e a China precisava de proteína para alimentar o crescimento da classe média. Em 2009, durante o segundo mandato de Lula, a China ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil, um marco histórico que foi celebrado como conquista diplomática. Era, também, o início de uma dependência estrutural que se aprofundaria nos anos seguintes.

2011–2016: Dilma 1 e Dilma 2, as primeiras aquisições estratégicas:

Com Dilma Rousseff na presidência, o Brasil atravessava um ciclo de boom de commodities e o acesso ao capital chinês parecia vantajoso sem custo aparente. Em 2014 e 2015, em meses consecutivos, a COFCO International, a gigante estatal chinesa de alimentos, realizou duas aquisições que passaram quase despercebidas no debate público brasileiro: a Noble Agri e a Nidera. Essas aquisições destacam a produção e o poder que a China acumulou. A Nidera, em particular, era uma empresa que já controlava usinas de açúcar e infraestrutura em toda a região Centro-Sul do Brasil. Não se tratava de um investidor financeiro comprando ações numa bolsa, era o Estado chinês comprando posição física na cadeia produtiva brasileira.

2016–2018: Temer, as compras que mudaram o jogo

O governo Michel Temer foi marcado por uma agenda de privatizações e abertura ao capital estrangeiro e para a China, foi a janela perfeita. Em 2017, dois movimentos simultâneos redefiniriam para sempre a estrutura do agronegócio global. O primeiro: a ChemChina adquiriu a suíça Syngenta por 46 bilhões de dólares, até hoje a maior aquisição de uma empresa chinesa no exterior em toda a história. A Syngenta não é uma empresa qualquer, é uma das três maiores do mundo em sementes e defensivos agrícolas, com presença dominante no Brasil. Em um único movimento, a China passou a controlar uma fatia significativa dos insumos que o produtor brasileiro usa todos os anos, sem que o Brasil tivesse qualquer política de avaliação de risco ou triagem de investimento estrangeiro em setores estratégicos.

No mesmo ano de 2017, o conglomerado estatal chinês China Merchants Port Holdings adquiriu 90% de um operador portuário em Paranaguá por 925 milhões de dólares. O Porto de Paranaguá é o segundo maior do Brasil e um dos principais pontos de saída de grãos do país, com essa aquisição, a China passou a estar fisicamente presente no ponto de embarque de toneladas de soja e milho que saem do Paraná para o mundo.

Ainda em 2017, através do Citic Agri Fund e da Yuan LongPing High-tech Agriculture: Pequim garantiu acesso completo ao banco de germoplasma de milho do Brasil através da aquisição da Dow Sementes. Germoplasma é o código genético das culturas, é onde começa toda a cadeia produtiva. E quem controla o germoplasma tem influência sobre quais sementes existirão no futuro, quais culturas serão desenvolvidas e a que preço.

2018: O movimento que quase ninguém percebeu

Em 2018, a COFCO vendeu a unidade de sementes da Nidera para a Syngenta. Poderia parecer um desinvestimento, mas na prática, foi o oposto: a COFCO vendeu a unidade Nidera Seeds para a Syngenta em 2018, garantindo que o ativo permanecesse sob controle chinês, já que a Syngenta é controlada pelo grupo estatal Sinochem. Uma empresa estatal chinesa vendeu um ativo para outra empresa estatal chinesa, o ativo nunca saiu da órbita de Pequim.

2019–2022: Bolsonaro, retórica anti-China, prática pró-China:

Jair Bolsonaro chegou ao governo com discurso abertamente hostil à China, e saiu dele depois de ter aprofundado a dependência estrutural do Brasil ao país. A contradição não é coincidência: ela revela o tamanho do problema. Com o mercado americano fechando para a soja brasileira por razões tarifárias e a demanda chinesa crescendo, o Brasil não tinha alternativa comercial real. Em 2022, durante o governo Bolsonaro, a COFCO assinou a concessão de 25 anos para o terminal STS-11 no Porto de Santos, comprometendo-se a investir aproximadamente 285 milhões de dólares no local. O maior porto do Brasil passou a ter um terminal de grãos operado pelo Estado chinês por um quarto de século.

2023–2026: Lula 3, a aceleração:

Com a volta de Lula ao poder em 2023, a relação Brasil-China ganhou nova formalidade diplomática. Em abril de 2023, Lula visitou Pequim e assinou 15 acordos bilaterais com a China, incluindo cooperação em certificação eletrônica para produtos de origem animal, protocolos sanitários e acordos de segurança alimentar. Do ponto de vista da narrativa oficial, foi uma vitória diplomática, do ponto de vista geopolítico, foi mais uma camada de institucionalização de uma dependência que já estava estruturada.

Em novembro de 2024, o presidente Xi Jinping viajou pessoalmente ao Peru para inaugurar o Porto de Chancay, um porto de águas profundas de 3,5 bilhões de dólares construído e operado pela COSCO Shipping, empresa estatal chinesa, que detém 60% do empreendimento e a concessão exclusiva de operação. Pesquisas com imagens de satélite do CSIS destacaram o potencial de uso dual do porto: os cais são largos o suficiente para que a Marinha do Exército de Libertação Popular atraque navios militares, algo que gerou preocupações no Comando Sul dos EUA.

Em julho de 2025, Brasil e China assinaram um memorando de entendimento para realizar estudos conjuntos de uma ferrovia bioceânica conectando o interior do Brasil ao Porto de Chancay. Para Pequim, o corredor representa mais do que um projeto de infraestrutura, os estudos são descritos como combinando objetivos comerciais com amplos interesses geopolíticos. Ao participar desde a fase de planejamento até o porto de destino, a China se posiciona como financiadora, operadora e usuária privilegiada de um novo fluxo de exportações sul-americanas.

Em 2025, a China Merchants Port anunciou a intenção de adquirir 70% do Porto de Açu, o maior terminal de exportação do Brasil para petroleiros Very Large Crude Carriers. E em outubro de 2025, o Banco de Exportação e Importação da China (CEXIM) e o BNDES anunciaram um fundo conjunto de até 1 bilhão de dólares para projetos no Brasil, incluindo sistemas agrícolas, operacional a partir de 2026.

Você sabe o que a China controla hoje?

Quando se olha para todos esses movimentos juntos, emerge um mapa que deveria estar sendo debatido com urgência em Brasília, nas cooperativas e nas associações de produtores. A China não tem uma posição no agro brasileiro, ela tem uma cadeia completa.

Nas sementes e defensivos, a Syngenta, ChemChina/Sinochem, é uma das líderes globais em culturas que o produtor brasileiro planta todos os anos. A DBN Biotech já anunciou sua sede latino-americana no Brasil com o objetivo de desenvolver a chamada “nova rota da soja”, com planos, até 2028, de vender sementes geneticamente modificadas ao Brasil para garantir soja a preços mais baixos, influenciando diretamente o valor de mercado da commodity.

Na logística e no escoamento, a COFCO detém o maior terminal privado de grãos do Porto de Santos, com capacidade para 14,5 milhões de toneladas anuais. Em 2022, a COFCO nem aparecia na lista das mil maiores empresas do Brasil segundo o ranking Valor/Serasa/FGV. Em 2024, ela havia chegado à 14ª posição. Em quatro anos, tornou-se uma das maiores empresas do país, sem que o debate público tenha processado o que isso significa.

Nos portos, o controle chinês abrange Paranaguá, Santos e agora Açu, três das principais saídas de commodities do Brasil para o mundo. No Pacífico, o Porto de Chancay serve de âncora de uma rota que a China está construindo para tornar-se independente do Canal do Panamá no escoamento de grãos brasileiros para a Ásia.

No financiamento, o fundo CEXIM-BNDES posiciona capital estatal chinês no coração do banco de desenvolvimento brasileiro, com poder de orientar quais projetos agrícolas recebem crédito e em quais condições.

E no comércio em si, a China compra 74% do total de suas importações de soja do Brasil. O Brasil tem um único grande comprador para sua principal commodity de exportação. Isso não é parceria estratégica, é dependência estrutural.

O que acontece com o preço da soja quando a China decide apertar o botão vermelho?

Em meados de março de 2026, a Cargill teve que interromper temporariamente as exportações de soja do Brasil para a China devido a novos requisitos de inspeção. E não foi uma sanção formal, não foi uma guerra tarifária declarada, foram simplesmente “novos requisitos de inspeção” que a China pode criar, suspender, recriar e aplicar de forma seletiva quando quiser. Esse é o poder de quem controla a demanda em 74% do seu fornecimento e tem presença física na logística de quem fornece.

Quando a China controla o terminal de onde sai sua soja produtor, os vagões que a transportam e a empresa que a negocia, ela tem influência direta sobre o preço FOB que você recebe, mesmo que você nunca perceba. Quem controla a infraestrutura de escoamento define, na prática, qual é o custo de base do produtor. E quem define o custo de base tem poder sobre a margem.

Mas há um risco ainda maior, que vai além do preço. Um recente relatório do grupo de consultoria Markestrat aponta para o risco de um crescente desequilíbrio estrutural. O Brasil está se especializando na produção de commodities brutas para um único comprador que controla cada vez mais os elos da cadeia que agregam valor, sementes, logística, processamento, tecnologia. Resumindo: o produtor brasileiro produz e China decide quanto vale.

A diferença entre segurança nacional e pauta de negócios

Enquanto o Brasil abre portas para o capital chinês sem critério de triagem, os Estados Unidos fizeram o movimento oposto. Em julho de 2025, a secretária de Agricultura Brooke Rollins, ao lado do secretário de Defesa Pete Hegseth, da procuradora-geral Pam Bondi e da secretária de Segurança Interna Kristi Noem, apresentou um plano de segurança nacional de sete pontos para bloquear investimentos de adversários estrangeiros e aumentar as divulgações públicas de propriedade estrangeira de terras agrícolas. Quatro secretários de Estado sentados juntos para discutir terra agrícola. Nos Estados Unidos, isso é segurança nacional, no Brasil, ainda é pauta de negócios.

Diferentemente dos Estados Unidos, onde o Comitê de Investimento Estrangeiro nos EUA (CFIUS) tem um papel importante na segurança econômica doméstica, agências equivalentes na América Latina ou não existem, ou são subfinanciadas, ou estão completamente ausentes. O Brasil não tem um mecanismo equivalente ao CFIUS, qualquer empresa estatal chinesa pode adquirir uma empresa estratégica brasileira sem que haja uma avaliação formal de risco à segurança nacional.

No caso de Chancay, um processo de revisão de investimentos mais cuidadoso poderia ter detectado problemas antes que o projeto avançasse. O Brasil, que ainda não tem esse processo formalizado, está repleto de “Chancays” agrícolas esperando para acontecer.

Negócios sim, controle de segurança nacional, jamais!

Nada do que foi descrito aqui implica que o Brasil deva romper relações com a China ou abrir mão do mercado chinês. A China é e continuará sendo o mais importante comprador do agro brasileiro por décadas. O problema não é vender para a China, o problema é não ter percebido, governo após governo, partido após partido, que enquanto o Brasil estava feliz vendendo, a China estava comprando não apenas o produto, mas o sistema.

Controlar uma rota entre os oceanos Atlântico e Pacífico fora do Panamá significa, para a China, diversificar rotas, reduzir exposição a gargalos em canais tradicionais e fortalecer sua capacidade de importar alimentos e minerais brasileiros por rotas onde empresas chinesas são atores centrais.

Para o produtor, a mensagem é prática: em um mundo onde a China controla cada vez mais da cadeia entre a sua fazenda e o consumidor final chinês, o poder de negociação do produtor brasileiro depende de que o Brasil mantenha, ou recupere, controle sobre os nós estratégicos dessa cadeia. Portos, ferrovias, sementes, tecnologia e financiamento não são apenas ativos econômicos, é segurança nacional.

A questão que precisa entrar na pauta das cooperativas, das federações de agricultura e do Congresso Nacional não é se a China é parceira ou adversária. É uma pergunta mais precisa e mais urgente: em que condições o Brasil está disposto a abrir mão do controle sobre a cadeia produtiva do seu principal setor exportador? E quais esferas, afinal, estão negociando essas condições em nome do produtor e lucrando e muito com esses mecanismos de negócios?

E mudando de assunto, a margem da soja e da agricultura em geral está cada vez mais incerta e volátil, especialmente com as turbulências geopolíticas que se somam aos desafios operacionais do campo.

Aliás, temos ressaltado que sistemas produtivos eficientes e produtivos podem muitas vezes não ser lucrativos. Isso mostra que produtividade alta, sozinha, não garante resultado econômico positivo.

Os custos de produção estão cada vez mais incertos, voláteis e em alta, assim como os preços dos grãos. Estar exposto sem uma gestão de risco e estratégias de proteção, em um cenário de margem cada vez mais apertada é algo que tem se tornado proibitivo.

O Farmnews disponibiliza, diariamente, seus estudos de forma gratuita pelo whatsapp. Clique aqui!


Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público.Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios.Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto.Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade.Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro.Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

Artigos populares